O estandarte é um dos elementos mais antigos e representativos dos cortejos populares. Antes de ocupar lugar de destaque nos blocos carnavalescos, nas escolas de samba e em outras manifestações festivas, sua presença já marcava procissões, ritos religiosos e celebrações comunitárias, anunciando a saÃda do sagrado ao encontro do povo. Entre as diferentes narrativas sobre sua origem, está a tradição das procissões nas quais a imagem do santo deixa o altar para percorrer as ruas junto aos fiéis. à frente do cortejo, o estandarte anuncia sua presença, conduz o percurso e reúne a comunidade ao redor de um sÃmbolo comum de devoção, identidade e pertencimento. Essa força simbólica permanece viva nas festas do Divino EspÃrito Santo, folias de reis, congadas, maracatus, blocos carnavalescos e em inúmeras manifestações da cultura popular brasileira. Mais do que um adereço, o estandarte materializa aquilo que é essencialmente imaterial: a memória, os afetos, as crenças, os desejos e a identidade coletiva de um grupo. Foi a partir dessa compreensão que o Bloco Petit PhUà desenvolveu, entre maio e julho de 2026, o projeto âEstandarte: Alma do Bloco | Alegoria da Vidaâ, contemplado pela PolÃtica Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), na categoria Carnaval. Os recursos da polÃtica pública também contribuÃram para a realização do Carnaval de 2026 do bloco e possibilitaram a continuidade de ações voltadas à difusão dos saberes, sÃmbolos e práticas que constituem a cultura carnavalesca. Para Weber Fonseca, um dos fundadores e produtor do Bloco Petit PhUÃ, a existência de polÃticas públicas é fundamental para a preservação e a transmissão desse patrimônio.
âO patrimônio cultural imaterial vive nas pessoas. Ele não existe sem quem saiba fazer, contar, ensinar e celebrar. As polÃticas públicas de cultura tornam possÃvel que esses conhecimentos circulem, sejam compartilhados e transmitidos. São elas que ajudam a garantir a continuidade das tradições e permitem que novos grupos também se reconheçam como participantes da vida culturalâ, afirma.
Democratização do acesso à cultura Com o objetivo de ampliar e democratizar o acesso aos bens culturais, o coletivo optou por realizar as oficinas com grupos que, por diferentes condições sociais, econômicas, etárias, domicÃlio, orientação sexual ou identidade de gênero, nem sempre conseguem acessar plenamente as atividades culturais oferecidas na cidade. âO carnaval é uma festa pública e popular, mas isso não significa que todas as pessoas consigam acessar plenamente os bens culturais que ele produz. O coletivo fez uma escolha consciente por desenvolver essas ações com grupos que enfrentam diferentes situações de vulnerabilidade. Democratizar a cultura também é reconhecer que todas as pessoas têm o direito de celebrar, produzir memória e participar da vida cultural da cidadeâ, explica Weber.
As ações foram desenvolvidas na Casa de Acolhida Assad-Kan, que atende pessoas em situação de rua; na Vila Vicentina, instituição de longa permanência para idosos; na Sociedade Amigos do Bairro Santa Angelina (SABSA), com crianças atendidas no contraturno escolar; e a última atividade do projeto foi realizada na Casa de Acolhimento LGBTQIAPN+ Ricardo Corrêa da Silva, encerrando, nesta semana, o ciclo iniciado em maio de 2026. Diálogo e criação Cada oficina começou com uma roda de conversa sobre a origem, os significados e a presença do estandarte nos ritos religiosos, nas festas populares e no carnaval. Os participantes foram convidados a compreender o objeto como uma representação coletiva capaz de comunicar a identidade de um grupo. Na sequência, os encontros se transformaram em espaços de escuta e criação. Os participantes conversaram sobre quais sentimentos, desejos, alegrias, experiências e formas de celebração deveriam aparecer no estandarte de cada instituição. A partir dessas trocas, foram escolhidos sÃmbolos, palavras, formas e cores para a produção coletiva das peças. âUm cortejo é formado por pessoas em movimento e celebração, conduzidas por cantos, sons, cores e elementos alegóricos. Tudo acontece ao mesmo tempo. O estandarte é o ponto para onde o olhar se dirige: ele anuncia quem chega, conduz o grupo e materializa a alma daquela manifestaçãoâ, destaca Weber. âPor isso falamos que ele é a alma do bloco. O estandarte corporifica o imaterialâ, completa. Depois da construção dos estandartes, cada oficina foi encerrada com uma experiência lúdica inspirada nos cortejos. O momento permitiu que os participantes experimentassem coletivamente o movimento, a música, a brincadeira e a ocupação simbólica do espaço, compreendendo que o carnaval também se produz no encontro entre os corpos. Acolhimento em todos os sentidos Além do envolvimento dos participantes, a receptividade das instituições marcou profundamente a realização do projeto. Gestores, educadores, assistentes, cuidadores e demais profissionais contribuÃram para adaptar as atividades à s caracterÃsticas e necessidades de cada grupo. âA palavra acolhimento vestiu perfeitamente essa experiência. Fomos acolhidos em todos os sentidos: pelos gestores das instituições, pelos educadores, pelas equipes que abriram as portas e acreditaram na proposta, e sobretudo pelos participantes das oficinas. Cada encontro foi muito generoso e construÃdo com muita disponibilidade para a trocaâ, relata Weber. Segundo ele, a resposta dos participantes demonstrou como a cultura carnavalesca pode transformar, ainda que temporariamente, as relações estabelecidas no cotidiano. âà incrÃvel perceber como a carnavalização é contagiante. Ela suspende a lógica cotidiana e cria um tempo de encontro, brincadeira, criação e celebração coletiva. As pessoas se permitem ocupar outros lugares, experimentar outras formas de expressão e se reconhecer como parte de um grupo. à essa potência que faz o carnaval existir durante todo o ano, e não apenas nos dias oficiais da festaâ, afirma. Ao final das atividades, cada instituição passou a contar com os estandartes criados a partir de sua própria identidade. As peças traduzem histórias, afetos, reivindicações, desejos, identidade e sÃmbolos escolhidos pelos participantes, reafirmando o estandarte como uma alegoria viva de pertencimento e expressão coletiva. Cuidado e imagem Por envolver pessoas em diferentes situações de vulnerabilidade, o Bloco Petit PhUà optou por restringir a divulgação de fotografias que possibilitassem a identificação direta dos participantes. A decisão buscou preservar a privacidade e a dignidade dos grupos, especialmente nos espaços de acolhimento. Na Vila Vicentina, por exemplo, diversas participantes manifestaram vontade de aparecer nas imagens e de mostrar publicamente o trabalho realizado. Mas aqueles que não desejavam ser fotografados puderam se retirar. No caso das crianças, o registro parcial foi apenas para efeito de relatório. âMuitas pessoas queriam aparecer, fazer selfies, ser vistas e mostrar com orgulho o estandarte que produziram. Isso foi muito bonito e também demonstra o desejo de visibilidade desses participantes. Ao mesmo tempo, entendemos que o cuidado com a imagem das pessoas em situação de vulnerabilidade deveria orientar a comunicação do projetoâ, explica Weber. A concluir o ciclo de oficinas, âEstandarte: Alma do Bloco | Alegoria da Vidaâ, o bloco reafirma o carnaval como patrimônio cultural vivo, construÃdo por pessoas, gestos, saberes e memórias. Ao aproximar diferentes públicos dos sÃmbolos e práticas dos cortejos populares, o projeto demonstra que o carnaval não se limita ao calendário oficial da festa: ele permanece vivo sempre que uma comunidade se reúne para criar, cantar, brincar, celebrar e produzir coletivamente sua própria representação.
Projeto: Estandarte: Alma do Bloco | Alegoria da Vida Realização: Bloco Petit PhUà Fomento: PolÃtica Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB); Secretaria Municipal de Cultura e Fundart; Prefeitura Municipal de Araraquara; Ministério da Cultura e Governo Federal. Sobre o Bloco Petit Phuà Fundado em 2017 pelos irmãos Kleber Fonseca e Weber Anselmo Fonseca, junto com seu grupo de familiares e amigos, o Bloco Petit Phuà nasceu como uma celebração familiar em homenagem à matriarca Maria Teresa Anselmo Fonseca, a Dona Telei, e rapidamente transformou-se em um persistente movimento de valorização do carnaval de rua em Araraquara. Inspirado na memória de blocos históricos da cidade, como a Banda do Fuá e a Turma do Funil, o Petit Phuà consolidou-se como um espaço de encontro, convivência e celebração da cultura popular. Ao longo de sua trajetória, tornou-se referência por promover um carnaval democrático, gratuito, intergeracional e inclusivo, reunindo pessoas de todas as idades â de bebês a idosos â e reafirmando o carnaval como patrimônio cultural, expressão de cidadania e instrumento de fortalecimento dos vÃnculos comunitários. Desde 2025, o cortejo oficial do bloco integra o Calendário Oficial de Eventos do MunicÃpio de Araraquara, reconhecendo sua relevância para a cultura popular local e sua contribuição para a valorização das tradições carnavalescas da cidade.
