Vanderlan da Silva Bolzani*
Setenta e cinco anos não são apenas a medida de um tempo administrativo. São a espessura histórica de um projeto civilizatório. Ao celebrar o aniversário do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Brasil revisita o momento em que decidiu que o conhecimento deixaria de ser esforço individual para tornar-se política de Estado. Nascia, ali, a institucionalização da pesquisa científica brasileira: não apenas de financiamento de programas e projetos acadêmicos em todas as áreas, mas de bolsas em todas as modalidades. O país criava não apenas uma agência de financiamento, mas uma visão de futuro. Soberania científica nas sociedades do conhecimento é alicerce de tecnologias de vanguarda, vitais para o desenvolvimento de inovações incrementais e radicais, e de soberania nacional.
Criado em 17 de abril de 1951, em um país ainda majoritariamente rural e desigual, o CNPq representou uma aposta audaciosa e talvez uma das mais ousadas da história republicana. Antes dele, a ciência brasileira existia, sobretudo, como vocação dispersa em escolas isoladas, institutos heroicos e figuras extraordinárias. Depois dele, passou a existir como um sistema nacional de apoio à pesquisa.
O que o CNPq inaugurou foi mais do que financiamento a bolsas e auxílios: foi uma gramática institucional para a produção de conhecimento. A formação de mestres e doutores, a organização das áreas do saber, a criação de redes nacionais de pesquisa e a conexão do país com a ciência internacional emergiram como consequências diretas dessa decisão histórica. O Brasil começou, então, a produzir ciência não apenas sobre si, mas para o mundo.
A construção desse sistema não ocorreu de modo solitário. Em diálogo permanente com agências estaduais de amparo à pesquisa, como a Fapesp, em São Paulo, e com a mobilização da comunidade científica organizada pela SBPC, consolidou-se um modelo cooperativo singular. Um pacto entre Estado, Universidades e Sociedade. Esse pacto permitiu que a pesquisa sobrevivesse a crises econômicas, mudanças políticas e transições históricas profundas, mantendo a continuidade necessária para que a ciência floresça, seja perene e tenha continuidade. Aliás, a verdadeira matéria-prima do conhecimento.
Ao longo de sete décadas e meia, o CNPq ajudou a formar gerações inteiras de pesquisadores que hoje estruturam universidades públicas e particulares, institutos de pesquisa acadêmica e tecnológicas, empresas inovadoras e políticas públicas. Da agricultura tropical à medicina de precisão, da exploração sustentável da biodiversidade à física de fronteira, a presença do CNPq está inscrita na própria paisagem intelectual do país. Cada tese defendida, cada laboratório consolidado e cada jovem pesquisador que decidiu permanecer no Brasil carrega, de forma visível ou invisível, a marca dessa instituição.
Celebrar os 75 anos do CNPq é reconhecer que a ciência brasileira não surgiu espontaneamente: ela foi cultivada. Exigiu planejamento de longo prazo, algo raro em sociedades marcadas pela urgência e confiança no valor do conhecimento como instrumento de soberania. A institucionalização da pesquisa científica significou transformar curiosidade em política pública e talento individual em patrimônio coletivo.
Hoje, quando o mundo enfrenta desafios complexos em pauta diárias nas mídias diversas sobre mudanças climáticas, transições energéticas, novas pandemias e revoluções tecnológicas, percebe-se com clareza a atualidade daquela escolha feita em 1951. Países não constroem autonomia apenas com recursos naturais ou força econômica; se constroem, em essência, com inteligência organizada. O CNPq foi, desde o início, a arquitetura dessa inteligência nacional.
Mais do que comemorar uma trajetória, sua aniversário projeta responsabilidade de gerações de talentos. Setenta e cinco anos não encerram uma história, mas abrem uma etapa mais exigente, em que a ciência precisa ser simultaneamente excelência acadêmica e compromisso social. A institucionalização da pesquisa, iniciada no século XX, torna-se agora a institucionalização da inovação, da sustentabilidade e do bem-estar coletivo.
Assim, celebrar o CNPq é celebrar uma ideia: a de que um país só compreende plenamente sua natureza quando investiga, mede, interpreta e imagina. Aos 75 anos, o CNPq permanece como guardião dessa convicção, qual seja de que o futuro do Brasil depende, profundamente, de sua capacidade de liderar conhecimento em todas as áreas científicas. Parabéns ao CNPq pela institucionalização da pesquisa científica brasileira, parabéns para todos nós que, de forma direta ou indireta, fazemos parte desta instituição e desta festa!
Vanderlan da Silva Bolzani é professora titular do IQ Araraquara
