Início Araraquara “A cidade tem que ser pensada para todas as pessoas”, afirma Marcelinho

“A cidade tem que ser pensada para todas as pessoas”, afirma Marcelinho

Vereador relembra barreiras enfrentadas ao longo da vida e defende autonomia, respeito e oportunidades para PCDs

Isabela Mattos/Colaboração

Marcelinho Gurgel conhece de perto os desafios que fazem parte da rotina de quem precisa enfrentar uma cidade que nem sempre está preparada para acolher todas as pessoas. Nascido com má-formação dos membros superiores, começou a trabalhar ainda jovem. Foi engraxate, cobrador de ônibus e vendedor de loja, até passar a vender doces em um semáforo da cidade. Das ruas, sua trajetória chegou às urnas, onde conquistou 1.355 votos e alcançou o primeiro mandato como vereador de Araraquara, pelo Progressistas.

Nessa segunda-feira (21), Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência, o vereador falou ao Jornal Imparcial sobre as barreiras que ainda impedem uma inclusão efetiva, os desafios do transporte e da acessibilidade e a necessidade de garantir que as pessoas com deficiência tenham o direito de estudar, trabalhar, circular e ocupar todos os espaços da cidade. Não apenas no discurso, mas na prática.

Leia a entrevista na íntegra:

Imparcial: Olhando para a sua trajetória, no Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência, o que você acha que falta para que a inclusão deixe de ser apenas discurso e passe a fazer parte efetivamente do planejamento da cidade?

Marcelinho: “Eu acho que o principal é a inclusão deixar de ser pensada depois que a cidade já está pronta. Ela precisa estar presente desde o começo, no planejamento de uma rua, de uma calçada, de um prédio público, de um transporte ou de um evento. Eu vivo isso na pele e sei que uma rampa mal feita, uma calçada sem condição ou um transporte que não funciona podem impedir uma pessoa de fazer uma coisa simples, como estudar, trabalhar, ir ao médico ou simplesmente sair de casa. Por isso, eu acredito que a inclusão precisa ser tratada como parte do planejamento da cidade, e não como uma adaptação que se faz depois. A cidade tem que ser pensada para todas as pessoas”.

Imparcial: Se você pudesse apontar hoje três problemas de Araraquara que uma pessoa com deficiência enfrenta diariamente e que precisam de soluções urgentes, quais seriam?

Marcelinho: “O primeiro é a acessibilidade nas ruas. Ainda temos muitas calçadas com problemas, rampas que precisam de manutenção e lugares onde a pessoa simplesmente não consegue passar com segurança. Por isso que diariamente eu trabalho nesta causa, protocolo indicações e cobro o executivo para que esta pauta seja tratada como prioridade. O segundo é o transporte. Não adianta a pessoa ter uma consulta, um trabalho, uma escola ou um lugar para ir se ela não consegue chegar até lá. O transporte precisa funcionar de verdade, com qualidade e, principalmente, com respeito. E o terceiro é uma coisa que muitas vezes não aparece: o preconceito e a falta de informação. Ainda existem pessoas que olham primeiro para a deficiência e só depois para a pessoa. Precisamos mudar essa forma de pensar”.

Imparcial: Você acredita que o programa Transporte Porta à Porta consegue cumprir o que se propõe no Art. 3º “garantir atendimento qualificado, adequado, cordial e respeitoso às pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, bem como seus acompanhantes, durante o embarque, o desembarque e a viagem no transporte coletivo, a contemplar treinamento e capacitação dos profissionais envolvidos no atendimento”? O que ainda é preciso melhorar?

Marcelinho: “Na minha visão, hoje ele ainda não consegue cumprir tudo o que está previsto. O programa é importante e tem que existir, mas ainda precisa melhorar bastante. A própria discussão que fizemos na Câmara mostrou que existem problemas de atendimento, de agendamento, de cancelamentos e de capacidade do serviço. Usuários e entidades trouxeram essas dificuldades, e uma das propostas discutidas foi justamente ampliar a estrutura e capacitar os profissionais. Eu acredito que o Porta à Porta precisa ter mais estrutura, mais veículos, mais organização e, principalmente, profissionais preparados para entender que estão lidando com pessoas que precisam de um serviço público essencial. O que está na lei precisa acontecer na prática. A Lei Municipal nº 11.068/2024 prevê expressamente atendimento qualificado, cordial e respeitoso, além de treinamento e capacitação. Inclusive, desde que assumi meu mandato, minha luta é para trazer vans adaptadas para realizar este transporte, eu venho articulando isso junto do deputado do meu partido e não vou parar, até o final do meu mandato eu quero garantir que este serviço tão importante tenha mais estrutura para acontecer na nossa cidade”.

Imparcial: Falando em Transporte Porta à Porta, durante audiência pública que debateu problemas enfrentados pelos usuários do transporte, realizada no Plenário da Câmara Municipal em junho deste ano, uma das participantes da audiência afirmou que os motoristas tratam mal os cadeirantes e seus acompanhantes. Então, além de ter todo o desgaste da locomoção, ainda há a reclamação quanto ao tratamento. Quando falamos sobre a pessoa ter a chance de viver a vida, para além da deficiência, isso começa na forma que ela é tratada quando decide sair de casa. De que forma isso pode ser melhorado?

Marcelinho: “Eu acho que tudo começa pelo respeito. Quem entra em um transporte público, seja ele coletivo ou personalizado, não está pedindo um favor. Está exercendo um direito. O motorista precisa entender que, para uma pessoa com deficiência, aquele momento pode ter um peso muito maior. Às vezes, ela já enfrentou uma calçada ruim, uma dificuldade para sair de casa, precisou organizar toda a rotina para conseguir fazer aquele deslocamento. Não pode chegar no transporte e ainda ser tratada com falta de paciência ou falta de respeito. Por isso, eu defendo treinamento de verdade, capacitação contínua e também um canal para que quando o usuário reclame, que ocorra uma apuração justa e, se comprovado o fato denunciado, que os responsáveis sejam punidos, mas também muito bem orientados, para que não volte a acontecer. Não basta adaptar o veículo. É preciso adaptar também a forma como as pessoas são tratadas”.

Imparcial: O transporte escolar de crianças com deficiência foi tema de cobranças, denúncias de famílias e discussões na Câmara Municipal ao longo deste ano. Você chegou a cobrar publicamente melhorias urgentes no transporte para PCDs. Depois de meses de cobranças, o problema foi solucionado ou as famílias continuam enfrentando dificuldades para garantir que essas crianças cheguem à escola?

Marcelinho: “Eu não acho correto dizer que o problema está totalmente resolvido. Houve avanços e houve movimentação do poder público para melhorar esse serviço, mas ainda existe uma estrutura que precisa ser acompanhada de perto. O Secretário Municipal de Educação participou da reunião extraordinária do COMDEF – Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e mostrou que está dedicado em resolver este problema. Em agosto deste ano, inclusive, precisou ser aberta uma nova contratação específica para o transporte escolar de alunos PCDs, com previsão de veículos adaptados, motorista e monitor. Para mim, o mais importante é que nenhuma família tenha que lutar todos os dias para conseguir aquilo que deveria ser básico: garantir que uma criança consiga chegar à escola com segurança, dignidade e tranquilidade”.

Imparcial: Seu Projeto de Lei nº 11/2025, aprovado por unanimidade na Câmara Municipal em fevereiro de 2025, amplia as garantias de acessibilidade e preferência de assentos em teatros, cinemas, auditórios, estádios, ginásios e outros espaços. Na sua visão, as pessoas com deficiência têm ocupado esses espaços em Araraquara ou ainda estamos longe de uma inclusão efetiva?

Marcelinho: “Eu acho que estamos avançando, mesmo ainda estando longe do que eu considero ideal. Eu fico muito feliz quando chego nesses locais e eventos e encontro com PCDs desfrutando de momentos de lazer e cultura nestes ambientes. Ter um lugar reservado é importante, mas inclusão não é só ter um espaço destinado para a pessoa com deficiência. É ela conseguir chegar naquele lugar, entrar, circular, usar o banheiro, assistir ao evento e voltar para casa com segurança. Meu projeto virou a Lei nº 11.480/2025 e criou regras para a reserva de espaços e assentos para pessoas com deficiência nesses locais. Foi uma conquista importante, mas uma lei sozinha não muda a realidade. Eu quero que a pessoa com deficiência vá ao cinema, ao teatro, ao estádio, a um show, a uma festa. Que ela não fique em casa porque acha que aquele lugar não foi feito para ela. A gente precisa deixar de falar em incluir e começar a enxergar a pessoa com deficiência ocupando todos os espaços da cidade”.

Imparcial: Você fala sobre deficiência também a partir da sua experiência pessoal. Em que momento da sua trajetória você sentiu que a deficiência fez com que as pessoas enxergassem primeiro a sua limitação e só depois a pessoa que você é?

Marcelinho: “Eu acho que não foi um momento só. Isso aconteceu várias vezes na minha vida. Muitas vezes, antes de saberem meu nome, minha história, minha capacidade ou aquilo que eu queria fazer, algumas pessoas já olhavam para a minha deficiência e imaginavam o que eu não conseguiria fazer. E isso é uma coisa que machuca, porque você passa a vida tendo que provar que é capaz de coisas que outras pessoas nunca precisaram provar. Mas eu também aprendi que a deficiência faz parte de mim, mas não define quem eu sou. Eu sou filho, sou amigo, sou trabalhador, sou vendedor, sou vereador e tenho meus sonhos, meus defeitos e minhas qualidades, como qualquer outra pessoa. Eu acho que é isso que a sociedade ainda precisa aprender: antes da deficiência, existe uma pessoa”.

Imparcial: Para finalizar, o que você diria para uma pessoa com deficiência que, por causa das barreiras, do preconceito ou das dificuldades do dia a dia, já pensou em deixar de ocupar espaços, sair de casa ou correr atrás dos próprios sonhos? E se você pudesse voltar ao início da sua trajetória e conversar com aquele Marcelinho que ainda estava descobrindo como enfrentar essas barreiras, o que você diria para ele?

Marcelinho: “Eu diria para essa pessoa não desistir dela mesma. Eu sei que tem dias em que parece mais fácil ficar em casa, evitar um lugar, desistir de uma oportunidade ou pensar que aquele sonho não é para você. Mas não deixe que a falta de acessibilidade ou o preconceito dos outros decidam até onde você pode chegar. A deficiência pode trazer dificuldades, e eu não vou romantizar isso. Eu sei que existem dias difíceis. Mas também sei que a gente precisa continuar ocupando os espaços. E, para aquele Marcelinho do começo da caminhada, eu diria: não tenha vergonha de ser quem você é. Não aceite que outra pessoa diga o que você é capaz de fazer. Continue trabalhando, continue tentando e continue abrindo caminho. Talvez eu não pudesse mudar todas as barreiras que estavam na minha frente. Mas eu poderia mudar a forma como eu enfrentava cada uma delas. E hoje, como vereador, eu quero que outras pessoas precisem enfrentar menos barreiras do que eu precisei”, finalizou o vereador.

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