Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação Científica/Colaboração
A dor pode ser “compartilhada”? Uma pesquisa da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp, em Araraquara, revelou que animais saudáveis que conviviam com parceiros em condição de dor crônica passaram a apresentar alterações cardiovasculares e no sistema nervoso, além de aumento da ansiedade e da sensibilidade à dor, mesmo sem qualquer lesão física. Publicado na revista científica internacional Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry, o estudo ajuda a compreender os relatos frequentes de cuidadores e familiares que dividem a rotina com pessoas em sofrimento prolongado.
Segundo a pesquisadora Lígia Tavares, pós-doutoranda da FCF, o estudo avança sobre aspectos ainda pouco explorados na literatura científica. “Estudos anteriores já apontavam indícios de alterações comportamentais. No nosso trabalho, além de incluirmos fêmeas, que ainda aparecem muito pouco nas pesquisas sobre esse tema, ampliamos a investigação para além do comportamento. Também avaliamos respostas cardiovasculares, uma área em que praticamente não existem estudos utilizando esse modelo”, afirma.
Para o professor Carlos Crestani, vice-diretor da FCF e supervisor do trabalho, os achados mostram a importância de olhar para além do paciente. Segundo ele, o ambiente social ao redor também exerce um papel relevante e quem convive diariamente com situações de sofrimento pode experimentar impactos que muitas vezes passam despercebidos.
“Primeiro precisamos entender como esse processo acontece. A partir disso, podemos pensar em formas de minimizar seus efeitos ou, ao menos, descrever esse processo com clareza suficiente para que ele seja reconhecido e levado em consideração em diferentes contextos”, explica.
Como a pesquisa foi desenvolvida
Os pesquisadores utilizaram aproximadamente 40 ratos, que foram separados entre machos e fêmeas. Com 21 dias de vida, os animais foram alojados em pares do mesmo sexo, permanecendo juntos por cerca de duas semanas. Esse período prévio de convivência permitiu o estabelecimento de um forte vínculo de familiaridade entre as duplas.
“A familiaridade tem um papel importante. Temos dados de um estudo anterior onde o período de familiarização não foi respeitado e, nesses casos, o modelo de transferência de dor não funcionou tão bem. O laço social é o gatilho do processo”, comenta o professor da FCF.
No 14º dia, apenas um dos animais da dupla foi submetido a uma cirurgia que induz dor neuropática crônica. O outro companheiro permanecia fisicamente saudável, mas seguia convivendo normalmente com o parceiro lesionado. Passadas mais duas semanas, fase em que a dor crônica já se encontrava plenamente estabelecida, os pesquisadores passaram a avaliar o chamado “animal observador”, aquele que apenas compartilhava o ambiente com o companheiro em sofrimento. Foram aplicados testes comportamentais e fisiológicos, entre eles o Labirinto em Cruz Elevado, que avalia sinais relacionados à ansiedade, e o Von Frey, que mede, a partir de estímulos mecânicos, a resposta de dor no sistema nervoso. Nele, os cientistas aplicam pequenas pressões nas patas dos animais para avaliar alterações na percepção dolorosa.
“Os animais que conviveram com parceiros sentindo dor crônica apresentaram altos níveis de ansiedade, evitando os braços abertos do labirinto. Entretanto, observamos que as fêmeas mantiveram um comportamento mais exploratório, indicando que, mesmo diante de certas situações, continuam explorando mais do que os machos”, destaca Lígia.
Por outro lado, o teste de Von Frey trouxe uma das maiores surpresas do estudo em relação à percepção dolorosa. O animal observador passou a apresentar hipernocicepção central, ou seja, uma sensibilidade à dor espalhada por ambas as patas, mesmo sem ter qualquer lesão física no corpo. O nível de dor de quem apenas conviveu chegou a ser igual ao do animal operado.
O teste também confirmou uma característica biológica já descrita na literatura, inclusive em humanos. “As fêmeas do grupo controle já apresentaram uma sensibilidade basal à dor maior do que os machos. Precisamos aplicar menos pressão mecânica para que elas retirem a pata, mostrando que elas já partem de um limiar diferente”, pontua Crestani.
Para avaliar os efeitos fisiológicos e cardiovasculares da convivência com um parceiro em dor crônica, os pesquisadores foram além dos testes comportamentais. Os ratos observadores passaram por um procedimento no qual foi implantado um pequeno cateter na artéria femoral, permitindo registrar continuamente parâmetros como pressão arterial e frequência cardíaca. Dessa forma, a equipe conseguiu acompanhar, em tempo real, possíveis alterações no funcionamento do organismo. Além disso, amostras de sangue foram coletadas antes e durante os testes para medir os níveis de corticosterona, hormônio associado à resposta ao estresse em roedores.
“As ‘fêmeas observadoras’ apresentaram aumento da frequência cardíaca e também uma maior resposta hormonal ao estresse. Isso mostra que, embora algumas respostas sejam semelhantes entre os sexos, as fêmeas carregam uma vulnerabilidade cardiovascular e endócrina exclusiva diante desse estresse social”, ressalta Lígia.
Para o professor Carlos Crestani, o nível de igualdade na transferência do sofrimento foi o que mais impressionou. “O animal que apenas convive com outro em dor passa a apresentar praticamente o mesmo quadro de sensibilização dolorosa do animal lesionado, mesmo com seu sistema nervoso periférico totalmente saudável”, afirma.
Por que isso acontece?
Embora o mecanismo exato ainda seja investigado, os pesquisadores apontam três hipóteses para explicar o fenômeno. Uma delas é a chamada resposta empática. Nessa interpretação, o “animal observador” seria capaz de perceber o sofrimento do companheiro e reagir de alguma forma a ele.
“Existem trabalhos que chamam esse tipo de resposta de empatia. A ideia seria que o animal estivesse se importando com o colega que está passando por uma situação difícil”, contextualiza Crestani.
Mas, para os pesquisadores, essa hipótese é difícil de ser comprovada, visto que a empatia é um fenômeno subjetivo e difícil de medir em animais. Uma segunda possibilidade é que o animal interprete o ambiente como perigoso. Ao perceber sinais de dor no companheiro, ele poderia entender que existe alguma ameaça naquele espaço e, por isso, passar a apresentar comportamentos defensivos.
“Talvez ele interprete que naquela caixa existe alguma coisa perigosa que fez o colega se machucar. E aí passa a aumentar a vigilância e a sensibilidade para conseguir se proteger”, observa o pesquisador.
Os autores também consideram que o sofrimento do outro possa funcionar como uma fonte contínua de estresse. “Talvez ele não esteja necessariamente preocupado com o colega, mas simplesmente incomodado por conviver diariamente com alguém em sofrimento. Esse estresse constante poderia explicar as alterações que encontramos”, acrescenta o professor Carlos.
Para a pós-doutoranda da FCF, independentemente da origem exata do fenômeno, o principal achado do estudo está claro: a convivência prolongada com alguém em sofrimento produz efeitos reais no organismo. “O que nós conseguimos provar é que isso altera o sistema nervoso, o sistema cardiovascular e provoca mudanças fisiológicas. O mecanismo exato ainda é um mistério”, pondera.
Próximos passos
Parte das amostras biológicas desses animais já foi analisada por Lígia Tavares durante um período de estágio de pesquisa na Universidade da Carolina do Sul, EUA, em colaboração com a professora Susan Wood, focando no mapeamento de marcadores de neuroinflamação.
“Agora estamos explorando os circuitos cerebrais. Estamos investigando o papel da ocitocina, um neurotransmissor intimamente ligado aos comportamentos sociais e afetivos. Queremos descobrir se, ao inativar neurônios específicos de ocitocina no cérebro, conseguimos bloquear o surgimento dessa ansiedade e da vulnerabilidade cardiovascular no observador”, projeta a pós-doutoranda.
Em paralelo, novos testes laboratoriais farão a retirada cirúrgica de hormônios ovarianos (ovarectomia) para entender exatamente como o estradiol atua na proteção ou no agravamento dos danos cardíacos induzidos pelo sofrimento compartilhado nas fêmeas.
Foto: Arquivo Pessoal
