Início Araraquara “Acabou o tempo da conscientização para quem comete crueldade”, afirma Michel Kary

“Acabou o tempo da conscientização para quem comete crueldade”, afirma Michel Kary

Vereador escancara a falta de apoio aos protetores de animais, ataca o abandono dos artistas locais e promete fiscalização rigorosa

Isabela Mattos/Colaboração

Em entrevista exclusiva ao Jornal Imparcial, o vereador Michel Kary (PL) e vice-presidente da Câmara Municipal, eleito com 2.843 votos para o seu primeiro mandato (2025-2028), fez um balanço do seu trabalho no legislativo, apontou limitações na fiscalização e na gestão do Executivo, além de reafirmar o compromisso de exercer um mandato presente na vida da população.

Leia a entrevista na íntegra:

Imparcial: Uma das suas áreas de maior atuação é a causa animal. Quando você começou a acompanhar de perto a realidade do Bem-Estar Animal de Araraquara, quais foram os déficits que você identificou e qual você considera ser o maior problema da política de proteção animal?

Michel Kary: “A primeira coisa que fizemos quando chegamos à Câmara de Araraquara foi enfrentar a impunidade na legislação municipal. O sentimento que eu tive, logo no início, é que nunca havia passado por lá alguém realmente preocupado com a causa animal de forma contundente. Muitas leis estavam ultrapassadas. Então, nossa primeira ação foi reestruturar as penalidades, aumentamos em até 100% algumas multas contra maus-tratos e criamos uma divisão clara e rigorosa entre infrações leves, médias, graves e gravíssimas. Em paralelo a isso, ao avaliar a gestão, o principal déficit que encontrei logo de cara foi a falta de profissionais e de estrutura no poder público para dar conta da demanda. Para ilustrar, logo no início do meu mandato, o canil municipal estava sem reforma, com grades enferrujadas que chegavam a machucar os animais. Fizemos indicações ao Executivo solicitando carros, motos e um caminhão para melhorar a fiscalização na cidade, além de indicar a criação da primeira UPA VET de Araraquara. É um sonho ver esse projeto saindo do papel, não só para mim, mas para todos que amam os animais. Os containers já estão ficando prontos, mas o nosso papel agora é avaliar e fiscalizar de perto como esse espaço será utilizado pela Prefeitura, garantindo que entregue o resultado que a população espera. Além disso, trouxemos emendas parlamentares para implantar espaços pet na cidade. Araraquara cresceu muito verticalmente, e a atividade física e a socialização são fundamentais para a qualidade de vida dos animais. Municípios do nosso porte já possuem esses espaços, e nós estávamos muito atrás nesse quesito. Mas, se eu tiver que apontar o maior problema da política de proteção hoje, é que o município ainda age sem focar na base, a prevenção e o apoio para quem está na linha de frente. Na prevenção, a saída obrigatória é a castração. Nós identificamos o tamanho dessa urgência na prática quando trouxemos a Carreta de Castração. Foram 450 inscrições esgotadas em menos de 24 horas. É uma necessidade real e a melhor forma de diminuir o aumento de animais de rua a longo prazo, sempre caminhando junto com a obrigatoriedade da microchipagem. O outro ponto crítico é a falta de apoio aos protetores independentes. O município não pode fechar os olhos para essas pessoas que recolhem, tratam, fazem campanhas independentes de adoção e carregam nas costas um peso enorme sem nenhum amparo da Prefeitura. Se não fossem eles, o problema nas ruas de Araraquara seria infinitamente maior. É por isso que defendo ser urgente estruturar mecanismos reais de suporte, como programas sólidos de fornecimento de ração e auxílio alimentar, para amparar o trabalho essencial que esses protetores já fazem diariamente.

Imparcial: Após um requerimento seu (nº 1166/2025), a Prefeitura informou que 45 multas foram aplicadas por maus-tratos entre 2024 e 2025. Na sua avaliação, a fiscalização e punição atual funcionam ou ainda existem lacunas? Qual é o limite entre a conscientização e a punição do tutor?

Michel Kary: “O número revelado pela resposta ao nosso Requerimento 1166/2025, apenas 45 multas aplicadas em um período de mais de um ano e meio, mostra o que já falamos, existem lacunas imensas na nossa fiscalização. A realidade nas ruas de Araraquara e as denúncias no nosso gabinete mostram que o número de casos de negligência e maus-tratos é muito maior do que isso. Portanto, a punição atual não funciona como deveria, não por culpa dos servidores, que muitas vezes fazem um trabalho heroico, mas pela falta crônica de estrutura. Nós fizemos a nossa parte no Legislativo, endurecemos a lei e aumentamos as multas. Mas a lei no papel vira letra morta se o município não tiver efetivo suficiente e viaturas nas ruas para apurar as denúncias e autuar os infratores com agilidade. Nosso gabinete recebe também informações de dificuldades nos atendimentos de denúncias do próprio bem-estar animal, na demora do flagrante ou no recolhimento, devido à falta de estrutura. Quanto ao limite entre a conscientização e a punição, para mim, a linha divisória é muito clara, ela passa pela intenção e pela vulnerabilidade social. A conscientização, a educação e o amparo do poder público devem ser direcionados àquela família ou tutor que ama o animal, mas não tem condições financeiras para mantê-lo de forma ideal. Nesses casos, o município tem o dever de agir não com a caneta da multa, mas com políticas públicas, oferecendo a castração gratuita com mais facilidade e sem burocracia, um atendimento melhor, o auxílio com fornecimento de ração e a orientação adequada. Isso é amparar a base. Agora, quando cruzamos a linha da crueldade intencional, do abandono premeditado, da agressão física e de manter o animal acorrentado no sol sem água por pura negligência, acabou o tempo da conscientização. O limite foi ultrapassado. Para esses casos, a resposta do município tem que ser a punição implacável. Maus-tratos é crime. E quem comete esse crime precisa sentir o peso máximo da lei e no bolso, sem ‘passadas de pano’. Foi justamente para combater esse perfil de infrator que nós trabalhamos para aumentar o rigor das multas na cidade.”

Imparcial: Além da causa animal, outra área de destaque é sua trajetória ligada à cultura e produção de eventos. Como você enxerga a cultura em Araraquara: tratada como política pública ou vista apenas como entretenimento? 

Michel Kary: “Para ser muito direto, hoje, a Cultura não recebe do Executivo o tratamento que merece. A Prefeitura não enxerga os nossos ‘pratas da casa’, as bandas e os artistas da cidade como parte de uma política pública contínua, e pior, nem como entretenimento pontual. Araraquara é um celeiro de talentos que se destacam no cenário nacional e internacional, mas o poder público municipal ainda falha em dar o amparo básico para quem é daqui. Eu venho da cultura. Sou músico, cantor, produtor de eventos e vivi na pele muitas das dificuldades de quem trabalha nesse setor. Por isso, tenho muito claro que cultura também é ocupação dos espaços públicos, geração de renda, identidade e desenvolvimento econômico. Quando realizamos um evento cultural, não movimentamos apenas o artista que sobe ao palco. Existe toda uma cadeia envolvida: técnicos, produtores, empresas de som, alimentação, bares, restaurantes, transporte e comércio. Investir em cultura é movimentar a economia da cidade. Infelizmente, em 2026, sentimos um verdadeiro apagão. Tivemos a ausência de eventos em datas vitais para a cidade, como o Dia do Trabalhador, o aniversário de Araraquara em 22 de agosto e a falta de um Carnaval forte. E quando cobramos isso, não estamos defendendo grandes gastos ou a contratação de artistas caríssimos de fora. Estamos falando do básico, manter uma programação, ocupar os espaços e criar oportunidades para os nossos próprios músicos, grupos e produtores. Existe ainda uma questão de acesso que considero fundamental, pois nem toda família tem condições de pagar por um show privado. A programação pública e gratuita é, muitas vezes, a única oportunidade que essas pessoas têm de acessar lazer. Cultura não pode ser um privilégio de quem pode pagar. Como presidente da Comissão de Cultura, Esporte e Lazer, meu papel não é apenas criticar, mas agir. Foi por isso que atuei diretamente para estruturar um orçamento de R$ 100 mil destinado à Secretaria Municipal de Cultura, em um projeto para levar música nos bairros, projeto que ainda está em aprovação do Governo do Estado. Pela minha trajetória, sei que muitas vezes o artista não precisa apenas de recurso financeiro, mas de espaço, estrutura, menos burocracia e oportunidade. É esse olhar que continuarei cobrando da Prefeitura, para que tenhamos uma agenda permanente e de valorização real de quem vive da cultura em Araraquara.”

Imparcial: Eventos culturais movimentam o comércio local, bares, restaurantes, prestadores de serviço e a economia da cidade. Como o poder público deveria investir diretamente nos artistas locais? Existe espaço para aproximar cultura e empreendedorismo?

Michel Kary: “Eu acredito que precisamos começar a olhar para a cultura de forma efetiva, e também como uma atividade econômica que gera emprego, renda e movimenta diferentes setores da cidade. Quando temos um evento cultural, não é somente o artista que trabalha. Temos técnicos, produtores, equipes de som e iluminação, fotógrafos, bares, restaurantes, comércio e diversos prestadores de serviço envolvidos. Por isso, o poder público precisa criar mais oportunidades para que o recurso destinado à cultura chegue efetivamente aos artistas locais. Isso passa por editais acessíveis, contratação e valorização de profissionais da cidade, programação cultural permanente e ocupação dos espaços públicos com atividades que permitam ao artista trabalhar, circular e gerar renda. E existe, sim, um espaço enorme para aproximarmos cultura e empreendedorismo. O artista também precisa ser visto como um profissional e, muitas vezes, como um empreendedor da economia criativa. Mas essa relação pode ir muito além. Um evento musical, por exemplo, pode acontecer junto com uma feira de artesanato, de gastronomia, de pequenos produtores ou de empreendedores locais. Dessa forma, uma mesma ação cultural cria oportunidades para diferentes setores, gera circulação de pessoas e amplia o impacto econômico daquele evento. Esse é um modelo que considero muito interessante porque fortalece a cultura e, ao mesmo tempo, incentiva o empreendedorismo local. A praça deixa de ser apenas o espaço de um show e passa a ser um ambiente de convivência, cultura, consumo e geração de renda para quem empreende na cidade. Também podemos avançar oferecendo capacitação em gestão, divulgação, elaboração de projetos, acesso a editais e apoio para que esses profissionais consigam transformar seu talento e seu trabalho em uma atividade economicamente sustentável. Tenho uma relação muito próxima com a cultura. Não sou especialista em todas as áreas, mas conheço muitas das dificuldades enfrentadas por quem vive desse setor. Na minha visão, a política pública mais eficiente é aquela que cria oportunidades e dá condições para que o artista tenha autonomia, seja valorizado pelo seu trabalho e possa crescer junto com a economia da cidade. E isso nem sempre significa, necessariamente, investir mais recursos. Muitas vezes, o poder público pode contribuir abrindo espaços, facilitando o acesso dos artistas, organizando coletivos e criando oportunidades para que praças e outros equipamentos públicos sejam ocupados com atividades culturais. É uma forma de apoiar quem produz cultura, incentivar pequenos empreendedores, ampliar a visibilidade dos artistas locais e aproximá-los ainda mais da população.”

Imparcial: Uma das suas bandeiras na segurança pública tem sido o armamento da Guarda Civil Municipal. Recentemente, foi aprovado pela Câmara a compra de 20 pistolas semiautomáticas, com R$ 150 mil de emenda parlamentar e contrapartida do município. O que muda, na prática, para o guarda e para a população quando a corporação passa a ter o armamento? De que forma você pretende acompanhar para que o investimento realmente melhore a segurança em Araraquara?

Michel Kary: “Primeiramente, é importante esclarecer que a compra dessas primeiras 20 pistolas é apenas o início de um processo muito maior de fortalecimento da Guarda Civil Municipal. Defender o armamento da GCM não significa simplesmente defender mais armas nas ruas. Significa defender uma Guarda preparada, treinada e equipada para enfrentar uma realidade que mudou. Hoje, o guarda municipal se depara com ocorrências cada vez mais complexas e com situações de alto risco. O que muda na prática é a capacidade de resposta e defesa, é fundamental que o agente tenha condições reais para proteger a própria vida, a dos seus colegas e, principalmente, a da nossa população. Os recursos iniciais que viabilizaram a compra das 20 pistolas, com R$ 150 mil de emenda parlamentar e contrapartida do município, representam um passo importante, mas não o único. Por meio de articulações políticas, conseguimos avançar na busca por novos investimentos. Um exemplo claro foi o Seminário de Segurança Pública que articulamos em Araraquara, onde foram anunciados mais R$ 600 mil para a corporação, sendo R$ 300 mil destinados pelo deputado federal Delegado Paulo Bilynskyj e outros R$ 300 mil pelo deputado estadual Danilo Campetti, além desses R$ 150 mil iniciais da Deputada Estadual Leticia Aguiar. Sobre como pretendo acompanhar esse investimento, a minha visão é que o vereador não pode apenas fiscalizar de longe. Ele precisa ser um agente ativo na prestação de contas e na evolução dos serviços. Fortalecer a GCM vai muito além da compra do armamento. É preciso garantir treinamento permanente, infraestrutura, exames psicológicos e qualificação profissional para que tudo seja feito com total responsabilidade. É assim que tenho atuado, ouvindo os agentes, participando de reuniões, articulando recursos e acompanhando de perto as demandas da corporação. Além disso, entendo que a segurança pública não pode ser tratada de forma isolada. Temos acompanhado de perto situações em diversas regiões de Araraquara onde a insegurança está ligada a problemas urbanos, como imóveis e espaços abandonados que se tornam pontos de consumo de drogas e descarte irregular. Nesses casos, nosso trabalho é cobrar a limpeza, exigir iluminação pública e articular as ações da Guarda Municipal com as demais secretarias. O nosso objetivo é maior, queremos uma Guarda cada vez mais valorizada, estruturada e respeitada, atuando dentro de uma política de segurança ampla para proteger as famílias da nossa cidade.”

Imparcial: Para finalizar, existe algum assunto que você tenha cobrado a Prefeitura e não tenha recebido a resposta que você esperava? E olhando para o restante do seu mandato, se você tivesse que escolher uma única bandeira para ser lembrado, qual seria e por que?

Michel Kary: “Temos enfrentado muita dificuldade para obter respostas rápidas e, principalmente, efetivas da Prefeitura. Muitas vezes, a justificativa que recebemos é a falta de recurso, mas nem toda demanda depende de dinheiro. Em muitos casos, o que falta é uma adequação, um olhar mais atento para determinada política pública, um atendimento específico ou, simplesmente, mais disposição para ouvir e buscar uma solução. É importante lembrar que as demandas que apresentamos não são demandas do gabinete. Cada indicação, cada requerimento e cada cobrança representa uma pessoa, uma família, um grupo ou uma realidade que chegou até nós e precisa ser compreendida. O trabalho do vereador também é esse, insistir, cobrar, acompanhar e não se conformar com uma resposta burocrática quando o problema da população continua existindo. Um exemplo que ainda me preocupa é a questão da cobrança relacionada às corridas de rua. Desde o início, defendemos que faltou diálogo com os organizadores, corredores e pessoas envolvidas nesse segmento. Fizemos questionamentos, cobramos esclarecimentos e, até hoje, existe uma expectativa desse grupo por um diálogo mais amplo com o poder público. São pessoas que movimentam o esporte, promovem saúde, ocupam a cidade e também movimentam a economia. Uma decisão que impacta diretamente esse setor precisa ser construída ouvindo quem vive essa realidade. E acredito também que o vereador não pode olhar apenas para as pautas que considera bandeiras do mandato. A saúde, por exemplo, não é uma das pautas que costumo apresentar como uma bandeira central, mas isso não significa que não vamos olhar para as necessidades que chegam até nós. Quando identificamos uma demanda importante, temos a obrigação de buscar caminhos, conversar com deputados, procurar recursos e tentar ajudar a cidade. Foi com esse olhar que conseguimos, junto ao deputado federal Paulo Bilynskyj, uma emenda de R$ 1,8 milhão para a saúde de Araraquara. É um recurso importante e que mostra exatamente como entendo o papel de um vereador, estar atento às necessidades da cidade e buscar ajuda onde for possível, independentemente de aquela área estar ou não entre as principais bandeiras do mandato. Olhando para o restante do mandato, se eu tivesse que escolher uma única bandeira para ser lembrado, seria a de um mandato próximo das pessoas e que transforma demandas em ação. Tenho pautas muito importantes, como a causa animal, a cultura, o esporte e o empreendedorismo, mas acredito que todas elas se encontram em um mesmo princípio, ouvir, estar presente e buscar soluções possíveis. Quero ser lembrado como um vereador que não recebeu uma demanda e simplesmente encaminhou um papel. Quero ser lembrado por acompanhar, cobrar, insistir, buscar recursos e tentar fazer com que as coisas realmente aconteçam. Porque, no final, o mandato só faz sentido quando consegue melhorar, de alguma forma, a vida das pessoas”, finalizou.

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