Em uma tarde de emoção e reconhecimento, Araraquara viveu um dos momentos mais simbólicos de seus 208 anos. No dia 12 de fevereiro de 2026, às 16h, no 6º andar do Paço Municipal, a cidade realizou o “Encontro da Comunidade Negra com a prefeita em exercício Meire Laurindo”, registrando um fato inédito: pela primeira vez, uma mulher — e uma mulher negra — ocupou provisoriamente a chefia do Executivo municipal.
A solenidade foi marcada por falas históricas e inteligentes, que ressaltaram a importância da representatividade e da valorização das raízes afro-brasileiras na construção do município. A mesa cerimonial reuniu o subsecretário de Políticas Étnico-Raciais, Sumbunhe N’famda; o prefeito de Boa Esperança do Sul, Manoel do Vitorinho; a artesã, escritora e agente territorial de cultura Silvana Oliveira, representando a Comunidade Negra Araraquarense; o ancião Kiko Luiz Salvador; o empresário Cláudio Claudino, representando a Comissão de Igualdade Racial da OAB; e o vereador João Clemente, representando a Câmara Municipal. Também foram registradas presenças de representantes da comunidade negra de Bauru, Ribeirão Preto, Piracicaba, Jaú e São Paulo.
Ao abrir os pronunciamentos, Sumbunhe N’famda destacou o significado do momento.
“A cultura negra nos ensina a reverenciar quem veio antes. Hoje, honramos nossos ancestrais ao testemunhar que uma mulher negra, araraquarense, ocupa este espaço de poder. Não é apenas um gesto simbólico; é a prova de que estamos reescrevendo a história com consciência e dignidade”, afirmou.
Representando o Legislativo, o vereador João Clemente ressaltou a responsabilidade das instituições na promoção da equidade racial. Já as lideranças comunitárias reforçaram que o feito transcende o campo político e inspira novas gerações.
Um dos momentos mais marcantes foi a entrega de uma lembrança à prefeita em exercício, simbolizando sua trajetória e a relevância histórica de sua passagem pelo cargo. Crianças negras participaram da homenagem, gesto que sintetizou o sentido do encontro: abrir caminhos para o futuro. Meire também recebeu uma saia com motivos africanos, representação de identidade, pertencimento e respeito às origens.
Em seu pronunciamento, Meire Laurindo emocionou o público.
“Não chego aqui sozinha. Chego com a força das mulheres que resistiram antes de mim, com a memória dos nossos ancestrais que lutaram contra o silêncio, contra a invisibilidade e contra a injustiça. Cada passo que dou neste espaço carrega os passos de quem abriu estradas em tempos muito mais difíceis. Que nossas meninas saibam que podem ocupar qualquer lugar onde seus sonhos as levarem. Que este momento não seja exceção, mas o início de um tempo mais justo, onde a cor da pele jamais determine o tamanho das oportunidades. Somos fruto de luta, de coragem e de fé — e é essa herança que hoje transformamos em futuro.” declarou.
O encontro reafirmou que a presença negra nos espaços de decisão é resultado de luta, competência e compromisso coletivo. Em fevereiro de 2026, Araraquara escreveu uma página que ultrapassa o protocolo institucional: consolidou um marco de representatividade, esperança e construção de um futuro mais igualitário.
