Isabela Mattos/Colaboração
A vereadora entrevistada pelo Jornal Imparcial, Filipa Brunelli (PT), afirma que junho, mês do orgulho LGBT, não é apenas mais um mês no calendário, mas sim um tempo de memória, resistência e luta. Filipa está em seu segundo mandato como vereadora, faz parte da oposição ao governo do Dr. Lapena e tem se posicionado de forma firme e combativa em todas as suas falas.
Veja a entrevista na íntegra:
Imparcial: Você entrou para a história como a primeira travesti eleita em Araraquara e hoje consolida sua liderança em um segundo mandato. Qual é o peso de ocupar essa cadeira na Câmara Municipal em uma cidade do interior paulista, tradicionalmente conservadora?
Filipa Brunelli: “O peso é enorme, porque a minha eleição nunca foi apenas uma conquista individual. Quando uma travesti ocupa uma cadeira no Parlamento, ela abre uma porta que historicamente esteve fechada para muitas pessoas. Eu represento uma parcela da população que sempre foi empurrada para a margem, silenciada ou tratada apenas como objeto de debate, mas raramente reconhecida como sujeito político.
Ser a primeira travesti eleita em Araraquara demonstra que a democracia pode avançar, mesmo em contextos conservadores. Meu mandato prova que pessoas LGBTQIA+, mulheres, pessoas negras, trabalhadores e todos aqueles que enfrentam desigualdades têm o direito de ocupar os espaços de poder e decidir os rumos da cidade.
Tenho muito orgulho dessa trajetória, mas também compreendo a responsabilidade que ela carrega. Não estou na Câmara apenas para simbolizar uma conquista; estou para fiscalizar, propor políticas públicas, defender direitos e enfrentar injustiças. A representatividade é importante, mas ela ganha ainda mais força quando vem acompanhada de trabalho, coragem e compromisso com a população”.
Imparcial: A sua fala na última Assembleia Geral do SISMAR gerou uma reação em cadeia: os vereadores da base falaram sobre te levar à Comissão de Ética e o próprio Prefeito entrou em campo através das redes sociais para incentivar essa ação. O título da nossa entrevista é justamente sobre como você se posiciona firmemente contra a atual gestão. Você enxerga essa movimentação do Prefeito e da base como uma tentativa legítima de cobrar decoro ou como uma clara perseguição política e tentativa de silenciar a oposição?
Filipa Brunelli: “Eu vejo essa movimentação como uma tentativa evidente de constranger e intimidar a oposição. Fui eleita para fiscalizar o Poder Executivo, questionar decisões da administração e denunciar aquilo que considero prejudicial à população e aos servidores públicos. Isso faz parte da função de qualquer vereadora.
O que me chama atenção é que, em vez de responder aos questionamentos políticos apresentados, optam por tentar transformar o debate em um processo disciplinar. Quando um prefeito utiliza suas redes sociais para incentivar uma representação contra uma parlamentar que o fiscaliza, isso ultrapassa o campo do debate político e entra no terreno da tentativa de constranger quem exerce o papel de oposição.
Tenho absoluta tranquilidade sobre minhas posições e minhas falas. Não devo nada a ninguém. Sempre atuei com coerência, transparência e coragem. Se acreditam que vão me intimidar com ameaças de Comissão de Ética, estão profundamente enganados. Meu compromisso é com a população de Araraquara, não com a conveniência dos poderosos”.
Imparcial: Na sua posse para este segundo mandato, em janeiro de 2025, você recebeu vaias do público presente, um reflexo nítido da polarização e da resistência à sua presença. Agora, em pleno Mês do Orgulho LGBT, você se vê sob a ameaça de uma Comissão de Ética articulada pela base do Prefeito. Como é exercer um mandato onde a sua própria existência e a sua voz parecem ser testadas sob constante hostilidade? Tudo isso te desgasta ou serve de combustível para a sua atuação na oposição?
Filipa Brunelli: “Ser uma mulher travesti na política brasileira significa conviver diariamente com tentativas de deslegitimação. Muitas vezes, aquilo que seria tratado como divergência política quando parte de outros parlamentares ganha uma dimensão muito maior quando parte de uma travesti que ocupa um espaço de poder.
É claro que existem momentos difíceis. Ninguém passa ilesa por ataques, ofensas, ameaças ou tentativas constantes de silenciamento. Mas eu aprendi, ao longo da minha trajetória, que transformar dor em luta é uma necessidade para quem quer promover mudanças. O fato de tudo isso acontecer justamente durante o Mês do Orgulho LGBT tem um significado simbólico muito forte. Porque o orgulho não nasceu da aceitação; nasceu da resistência. Nasceu da coragem de pessoas que se recusaram a voltar para a invisibilidade.
Então, se por um lado essas situações revelam que ainda existe muito preconceito e intolerância, por outro reforçam a importância de continuarmos ocupando esses espaços. Eu não fui eleita para ser uma figura decorativa. Fui eleita para fiscalizar, denunciar injustiças, defender os servidores públicos, os direitos humanos e os interesses da população.
Se tentam me desgastar, acabam produzindo o efeito contrário. Cada tentativa de silenciamento reforça a convicção de que a minha voz, a minha presença e o meu mandato continuam sendo necessários em Araraquara”, finalizou a vereadora.
