Isabela Mattos/Colaboração
Há 19 anos, Denize Carvalho transforma cabelos em símbolo de identidade, autoestima e pertencimento. Trancista, terapeuta capilar e especialista em cabelos afro, tornou-se referência em Araraquara ao unir técnica, empreendedorismo e valorização da cultura negra.
Neste ano, Denize passou a integrar a Secretaria Municipal de Cultura como professora de Oficina de Tranças, após ser selecionada por edital, mas, antes disso, já desenvolvia um importante trabalho de formação profissional, ministrando cursos na SABSA e no Centro Afro, em parceria com a empresa Gradux e a Subsecretaria de Políticas Públicas Étnico-Raciais.
Em homenagem ao Julho das Pretas, conversamos com Denize sobre sua trajetória, o racismo enfrentado na infância, o processo de aceitação do cabelo natural e a importância da representatividade.
Confira a entrevista:
Imparcial: Qual é o papel de datas como o Julho das Pretas na luta por autoestima, representatividade e respeito?
Denize Carvalho: “Vejo o Julho das Pretas como um marco das lutas que vêm sendo conquistadas ao longo dos anos. É um período que reforça a abertura de espaços para que mulheres negras tenham mais liberdade, respeito e representatividade. Também ajuda a quebrar tabus que, durante séculos, limitaram e impediram muitas de viverem plenamente, livres do medo imposto pela sociedade”.
Imparcial: Antes de cuidar do cabelo de tantas mulheres, como era a sua relação com o seu próprio cabelo durante a infância e a adolescência?
Denize Carvalho: “Na infância e na adolescência sofri muito racismo e preconceito. Isso fez com que eu rejeitasse meu próprio cabelo por muito tempo. Passei a recorrer aos alisamentos porque acreditava que só assim conseguiria me aceitar e ser aceita pela sociedade”.
Imparcial: Como esse trabalho transformou a mulher que você é hoje?
Denize Carvalho: “Esse trabalho me fez me reconhecer como uma mulher preta, de cabelo crespo 4C. Aprendi a cuidar de mim, a me amar e a ocupar o meu lugar de fala com confiança. Também me fortaleceu como mulher, valorizando minha identidade e desenvolvendo meu papel de liderança”.
Imparcial: Que mensagem você deixa para meninas e mulheres negras que ainda não conseguem se sentirem bonitas ou representadas?
Denize Carvalho: “Não tenham medo de se conhecer e de abraçar quem vocês são. Sejam mulheres pretas orgulhosas dos seus cachos, dos seus crespos ou dos seus cabelos ondulados. Não tenham medo de se libertar e de enfrentar as críticas. Somos todos iguais e cada uma merece ocupar seu lugar de fala e de representatividade. Quando caminhamos juntas, somos mais fortes. E nunca se esqueçam: os seus cachos são a sua coroa”, finalizou.
Julho das Pretas
Celebrado ao longo de todo o mês de julho, o Julho das Pretas é um movimento de valorização, resistência e fortalecimento das mulheres negras. A iniciativa tem como marco o dia 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e também Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, data que homenageia a liderança quilombola e reforça a luta contra o racismo, o sexismo e
as desigualdades sociais.
Mais do que uma celebração, o Julho das Pretas promove reflexões sobre os desafios ainda enfrentados pelas mulheres negras e evidencia a importância da representatividade, da autoestima e do reconhecimento de suas contribuições para a sociedade. Histórias como a de Denize Carvalho mostram que valorizar a identidade e a ancestralidade também é uma forma de resistência e de transformação social.
