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Minicurso na Câmara de Araraquara aborda uso prático da cannabis para fins medicinais

Atividade, realizada na sexta-feira (17), faz parte da IV Semana Municipal em Defesa da Cannabis Medicinal ‘Antonio Luiz Marchioni – Padre Ticão’

O Plenarinho da Câmara de Araraquara recebeu na tarde de sexta-feira (17), o minicurso “Cannabis medicinal na atualidade: o que sabemos e o que não podemos prometer”, com a médica de família e estudiosa de produtos à base de cannabis Ana Paula Urdiales Garcia.

A atividade faz parte da programação da IV Semana Municipal em Defesa da Cannabis Medicinal “Antonio Luiz Marchioni – Padre Ticão” e foi aberta pela presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Cannabis Medicinal, vereadora Fabi Virgílio (PT).

Ana Paula iniciou explicando “o que tem na ‘mala’ de um prescritor”:

  • Integração científica: integração entre evidência científica, farmacologia e avaliação de risco para abordagem holística e baseada em dados;
  • Prescrição racional: prescrição racional e individualizada adaptada às necessidades específicas de cada paciente e contexto clínico;
  • Expertise técnica: necessidade de conhecimento técnico aprofundado para aplicação eficaz de práticas baseadas em evidências.

Evidência

Ana Paula reforçou que há todo um processo para a comprovação da eficácia de uma planta, como é o caso da cannabis, segundo o National Institute for Health and Care Excellence.

  • Diretrizes clínicas de sociedades especializadas: orientações baseadas em evidências desenvolvidas por organizações especializadas, sintetizando recomendações clínicas;
  • Revisões sistemáticas e meta-análises: síntese rigorosa de múltiplos estudos, combinando resultados para identificar padrões e conclusões consolidadas;
  • Ensaios clínicos randomizados: estudos controlados com aleatorização de participantes, reduzindo vieses e estabelecendo relações causais;
  • Estudos observacionais e relatos: observação de populações sem intervenção controlada, documentação de casos e experiências clínicas individuais.

No caso da cannabis, há indicações com evidência consistente, de acordo com a Food and Drug Administration (FDA), dos EUA, para epilepsia refratária (síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut), tratamento da espasticidade associada à esclerose múltipla e náusea e vômito induzidos por quimioterapia (manejo de sintomas relacionados a tratamento oncológico).

As indicações com evidência limitada, segundo a American College of Physicians, envolvem dor crônica (neuropática e nociceptiva), transtornos de ansiedade (condições de ansiedade generalizada e específica) e distúrbios do sono (insônia e outros transtornos). “Na prática, temos tido uma resposta boa para distúrbios do sono”, ressaltou a médica.

Sistema molecular complexo

Conforme explicou Ana Paula, a cannabis possui um sistema molecular complexo, composto por:

  • THC: principal canabinoide psicoativo, responsável pelos efeitos psicotrópicos e propriedades terapêuticas;
  • CBD: canabinoide não psicoativo com propriedades anti-inflamatórias, ansiolíticas e analgésicas;
  • CBG: canabinoide precursor com potencial anti-inflamatório e propriedade neuroprotetoras;
  • CBN: canabinoide derivado da degradação do THC com propriedades sedativas e anti-inflamtórias;
  • THCV: variante do THC com efeitos mais curtos e propriedades metabólicas específicas;
  • Terpenos: compostos aromáticos que modulam os efeitos dos canabinoides e contribuem para o perfil farmacológico.

Desafio da padronização

A médica reforçou a variabilidade farmacêutica, ou seja, as diferenças físicas, químicas ou biológicas entre formulações de medicamentos (equivalência) ou na resposta do paciente (bioequivalência). De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela envolve:

  • Concentração variável entre lotes e produtos;
  • Risco de contaminantes, como metais pesados, pesticidas e fungos;
  • Ausência de padronização internacional;
  • Implicações para reprodutibilidade clínica.

Contraindicações relativas

Ana Paula fez alerta para o uso da cannabis em pacientes de alto risco, como idosos (farmacocinética alterada, polifarmácia, fragilidade), cardiopatas (risco arrítmico e hemodinâmico), pacientes em polifarmácia (interações medicamentosas múltiplas) e pacientes com insuficiência hepática (metabolismo comprometido). Para esses casos, há a necessidade de seleção criteriosa e monitorização intensiva.

O que pode ser oferecido?

A médica pontuou expectativas realistas:

  • Avaliação individual baseada em evidência: avaliação individualizada fundamentada em dados científicos e rigor metodológico para cada caso clínico;
  • Uso adjuvante a tratamentos convencionais: complementação terapêutica integrada aos tratamentos estabelecidos, sem substituição, potencializando resultados;
  • Melhora parcial e sintomática com monitorização: benefícios sintomáticos com acompanhamento contínuo de segurança e ajuste de dose baseado em resposta individual.

            O que não pode ser prometido?

            Ana Paula também expôs limitações científicas:

  • Cura de doenças crônicas: as limitações atuais da ciência não permitem garantir cura completa para condições crônicas complexas;
  • Eficácia universal em todas as indicações: os tratamentos podem apresentar diferentes níveis de efetividade dependendo de condições e características individuais;
  • Segurança absoluta ou ausência de efeitos adversos: todo procedimento científico envolve riscos inerentes, e efeitos colaterais podem ocorrer em determinados casos.

            Ela entende como importante considerar que a cannabis não substitui tratamentos convencionais estabelecidos, os resultados não são padronizados entre pacientes e não há uma evidência robusta para aplicações populares.

            Encerrando, a médica enfatizou que prescrever cannabis exige mais conhecimento do que entusiasmo, já que conhecimento farmacológico profundo é essencial para prescrição segura e eficaz; a evidência científica deve superar expectativas e pressões comerciais na tomada de decisão; e a responsabilidade médica na avaliação de risco é fundamental para proteger o paciente.

Além disso, há a necessidade de formação técnica específica e contínua para profissionais de saúde, abordagem crítica e baseada em ciência em todas as decisões clínicas relacionadas e proteção do paciente como prioridade absoluta em todas as circunstâncias.

Também estiveram presentes o professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp Araraquara André Gonzaga dos Santos, o assistente de Suporte Acadêmico da FCF Caio Perego e o doutorando da FCF Sven Zalewski.

Atividades

A primeira atividade ocorreu na noite de segunda-feira (13), no Plenário, com a Audiência Pública “A nova regulamentação da cannabis: avanços e desafios”.

Na quinta-feira (16), o Plenarinho recebeu o minicurso “Desmistificando o uso terapêutico da maconha”, com o doutorando da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Araraquara Sven Zalewski.

Já nesta quinta-feira (23), às 19 horas, tem lançamento do livro “Redução de danos e vínculos com usuários de drogas: a escuta do olhar de um palhaço”, do psicólogo e doutorando em Ciências Sociais Rafael Torres Azevedo, com mediação do professor Marcelo Tadeu Marin (FCF), no Anfiteatro Biblioteca da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (sala 18), na Rodovia Araraquara-Jaú, km 1.

O evento é uma realização da Frente Parlamentar em Defesa da Cannabis Medicinal da Câmara Municipal de Araraquara em parceira com a Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp Araraquara.

Sobre a semana

Semana Municipal em Defesa da Cannabis Medicinal “Antonio Luiz Marchioni – Padre Ticão” foi incluída no Calendário Oficial de Eventos de Araraquara e é realizada anualmente na terceira semana do mês de abril, em decorrência da comemoração do Dia Mundial da Maconha, o Pot Day. A Semana traz o nome do Padre Antonio Luiz Marchioni, o Padre Ticão, referência em trabalhos sociais na Zona Leste de São Paulo, defensor da população em vulnerabilidade social, ativista pela justiça e igualdade social e líder da luta pela legalização da cannabis medicinal.

Além disso, Padre Ticão também foi pároco em Araraquara, quando chegou, em 1978, à Paróquia de São Geraldo, para substituir o padre Armando Salgado.

A Semana busca reforçar a disseminação de informações sobre os benefícios da cannabis no tratamento de várias doenças, por meio de palestras, rodas de conversa, seminários, feiras e eventos culturais, dentre outros. A proposta é conectar especialistas, pesquisadores, médicos, associações, usuários da cannabis medicinal e interessados no assunto para troca de informações sobre resultados positivos de tratamentos, novas pesquisas e usos eficazes.

Vale destacar que os recursos necessários para atender às despesas com a execução da lei são obtidos mediante parcerias com empresas da iniciativa privada ou governamental, sem acarretar ônus para o Município.

IV Semana Municipal em Defesa da Cannabis Medicinal

Quinta-feira (23), às 19 horas, no Anfiteatro da FCF Unesp Araraquara: Lançamento do livro “Redução de danos e vínculos com usuários de drogas: a escuta do olhar de um palhaço”, de Rafael Torres Azevedo

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