Por José Augusto Chrispim
O ex-deputado estadual e ex-prefeito de Araraquara, Roberto Massafera (PSDB), falou com exclusividade à reportagem de O Imparcial sobre como analisa o cenário político brasileiro atual. O engenheiro, que é uma das figuras mais importantes da política araraquarense, lançou sua pré-candidatura a deputado federal e espera ser uma terceira via ocupando o espaço deixado entre os candidatos da esquerda e da direita na região de Araraquara.
Cenário político
Questionado sobre o cenário político atual, Massafera respondeu que vê um governo federal cansado e uma desordem política no país. “O cenário político de hoje se assemelha muito ao de 1964, pois, existe uma grande desordem política, institucional, jurídica e econômica, além disso, nós enfrentamos essa questão de embargo americano, que é uma questão até política, mas, o grosso das exportações brasileiras vai para a China e para a Europa, o total desse embargo que os americanos estão impondo reflete mais ou menos 20% das nossas exportações, então é discutível o que se fazer. Porém, hoje, nós estamos com um governo cansado, há 20 anos no poder, e a gente sabe que o poder é uma coisa que corrompe e consome. E as alternativas são políticas, quando a realidade social e econômica do Brasil é muito difícil. Eu encaro que a gente viveu bem esses últimos anos devido à agricultura, se você for em Matão vai ver o Baldan, a Marchesan e outras empresas que vendem máquinas agrícolas, eles estão parados desde o ano passado, vendendo pouco e desempregando. O produtor de soja que vendia a saca a R$ 180,00 hoje está a R$ 110,00, uma saca de milho vendia a R$ 90,00 e hoje está a R$ 45,00. Hoje se você plantar e correr tudo bem, na hora que você for colher por esse preço, você vai pagar o custo de produção, além dos juros bancários que estão muito elevados para a agricultura, então nós temos uma situação muito difícil hoje para a agricultura, pois, o adubo aumentou de preço, o diesel teve aumento devido à guerra dos EUA com o Irã, e não há no país uma liderança estruturada, porque nós passamos por grandes problemas políticos no Senado e na Câmara dos Deputados, e quem faz as leis no país são a Câmara e o Senado. Hoje, nós temos um sistema errado, viciado e com pessoas despreparadas para dirigir o país no Senado, na Câmara Federal, nas Câmaras municipais e deputados estaduais despreparados e, como são eles que fazem as leis, o Executivo, prefeitos, governadores e o presidente, ficam escravos da lei, e têm que cumprir leis que eles não conseguem, então, acho que vivemos hoje uma dicotomia, onde você promete dar o que não tem e o povo espera receber o que o governo não dá”, entende o ex-prefeito.
Região sem representantes à altura
O ex-prefeito acredita que a região central do estado de São Paulo não tem atualmente representantes à altura e que ele pode se beneficiar disso na disputa. “Como pré-candidato a deputado federal, eu vejo que politicamente a nossa região está em um vazio, Araraquara, São Carlos, Matão, quarenta e oito cidades da região central estão sem representantes à altura, mas, fazendo um paralelo, se você dividir a política em dois lados, como no Tratado de Tordesilhas, de um lado Portugal que fala português e de outro lado Espanha que fala espanhol, só que o português não fala espanhol e o espanhol não fala português, então um não quer conversa com o outro. De um lado nós temos um setor estruturado politicamente e o outro lado é a oposição que está contra o poder e não aprova nada que se faz no governo, aí se tem um choque político onde ninguém está pensando no interesse público, no país e da comunidade, estão pensando em seus interesses particulares, e a prova disso é que a reforma tributária que vem aí é extremamente nociva aos municípios. Aqui no estado de São Paulo são 645 municípios que vão sofrer muito com a reforma que vem aí, e os estados também vão sofrer muito com a reforma porque, por exemplo, a prefeitura de Araraquara recebe os impostos municipais, o estado recebe os impostos estaduais e o governo federal recebe os impostos federais, agora, a reforma tributária vai transformar tudo em receita do governo federal ele que vai distribuir para os estados e municípios, ou seja, aquilo que a prefeitura faz bem feito vai para a mão do governo federal, aquilo que o estado faz bem feito vai para a mão do governo federal, onde existe um funil que direciona os recursos para onde eles querem e não para onde realmente precisa, então, no ano que vem nós vamos ter um choque muito grande na nossa economia. Nós já estamos tendo um choque devido à instabilidade na economia mundial por causa das guerras e, fora isso, vamos ter um problema interno”, entende o pré-candidato.
Reforma Tributária
A reportagem questionou o pré-candidato sobre a sua perspectiva sobre a reforma Tributária que deve ser aprovada em breve. “A arrecadação do governo federal hoje não é suficiente, então eles precisam de mais, o fato do governo querer taxar a movimentação do PIX, só isso já configura um aumento da carga tributária, sem mudança nenhuma. Essa reforma tributária só muda os impostos e muda quem arrecada, vai centralizar na máquina pública federal que é ineficiente e perdulária, onde você tem um sistema político extremamente privilegiado, um sistema judiciário extremamente privilegiado, então, eu penso que nós estamos construindo um país errado, onde a juventude se desinteressa pelo assunto e vive hoje com o celular na mão vivendo outro mundo que é um mundo sem futuro. Por que na China está crescendo muito a quantidade de engenheiros e outros profissionais? Por isso, vemos que os carros chineses atualmente estão dominando o mercado mundial no lugar de outras empresas americanas e europeias, esse é o mundo que estamos construindo”, questiona.
Governo Tarcísio
Perguntado sobre a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), Massafera respondeu que ele faz um bom governo, apesar de não concordar com a privatização da Sabesp. “Acho que o Tarcísio faz uma boa gestão no governo de São Paulo, o qual ele pegou em boa situação e está implantando a visão dele na privatização e nas concessões. Em algumas coisas ele acertou e, em outras coisas, o tempo vai dizer. Por exemplo, todas as nossas rodovias têm concessão e têm pedágio, essa foi a única forma encontrada pelo ex-governador Mário Covas para terminar as rodovias, isso está bem feito, funciona bem. Agora, nós tínhamos a Sabesp que operava mais de 300 municípios sendo do Estado, então se ela desse lucro, ele ia para o governo do Estado que reinvestia. Agora ela foi privatizada, então as empresas passam a ter a obrigação de investir e manter a rentabilidade, pois, o capitalista visa o lucro, por isso, ao mesmo tempo que ele trabalha mantendo a qualidade dos serviços, a expansão vai ser limitada. Hoje existem vários países onde foram realizadas essas concessões e as empresas acabaram sendo reestatizadas, porque o setor privado não deu conta dos serviços, pois, o dinheiro aplicado dá muito mais lucro que sendo utilizado nas empresas de saneamento. Essa é uma realidade que pode ocorrer aqui também. Em algumas cidades que necessitam de muitos investimentos no saneamento esse tipo de concessão é positivo, porém, a gestão de uma empresa grande que tem que investir e a direção vê que não vai atingir as metas capitalistas de retorno financeiro, já já pode estar devolvendo para o poder público. Já na área da saúde, eu vejo que o governo de São Paulo fez um investimento muito positivo na criação do SUS Paulista que complementa a verba do SUS do governo federal enviada para as cerca de 400 Santa Casas do estado que é deficitária. Além disso, aqui em Araraquara, o novo prédio da Santa recebeu um aporte de R$ 30 milhões do governo do estado para a conclusão das obras, graças ao governador Tarcísio, ao nosso conselheiro Dimas Ramalho e aos deputados que enviaram emendas parlamentares, a Câmara que aprovou, entre outros. Depois de pronto, serão mais R$ 25 milhões em equipamentos que o governo do estado garante, então, a Santa Casa vai ter um upgrade de mais 30 leitos de UTI que vão atender à região com sucesso. A oncologia da Santa Casa hoje é referência regional e atende cerca de 70 pessoas por dia, de toda a região. Outro ponto positivo que vejo no governo do Tarcísio é o investimento nas escolas técnicas, que hoje são um sucesso, pois, o estudante vai para uma escola que tem uma educação boa e, ao mesmo tempo, aprende o começo de uma profissão, então, se ele não for fazer vestibular para seguir carreira universitária, ele já tem o início de uma profissão que recebeu na ETEC que tem uma procura muito grande por sua qualidade educacional”, justifica.
Renascer das cinzas
O ex-prefeito vê o PSDB esvaziado, mas, acredita em um ressurgimento no cenário político nacional. “É uma esperança, o PSDB foi esvaziado, foi pisoteado, os deputados eleitos do PSDB deixaram o partido e, ao mesmo tempo, nós temos um passado que foi muito bom com o Plano Real, os desempenhos dos governos do estado de São Paulo com o Serra, o Alckmin, que credencia o partido, porém, hoje ele está a zero. Por isso, nós estamos em um trabalho de ressurgir das cinzas, de ressuscitar o partido na nossa região, onde São Carlos, Araraquara e Matão o partido está praticamente esvaziado, então, o nosso trabalho está sendo levantar o partido na direção do governador Tarcísio de Freitas, pois, nós acreditamos nele e temos dois candidatos da oposição e temos a terceira via que hoje são o Caiado e o Zema. Cada um escolhe quem quiser, depois no segundo turno, escolhe quem estiver lá, mas, o PSDB está ressurgindo das cinzas e, se eu conseguir me eleger, quero ir para Brasília para discutir exatamente os problemas mais graves do país que não estão sendo discutidos da maneira adequada”, finalizou Massafera.
Biografia
Roberto Massafera nasceu em 28 de agosto de 1944, na cidade de Araraquara/SP. Filho de Gerson Massafera e Amália Acetozi Massafera, cresceu ao lado dos irmãos Luiz Antonio e Carlos Eduardo.
Durante sua infância, residiu alguns anos com a família na cidade de Marília/SP, onde seu pai teve um comércio, mas retornaram e fixaram novamente residência no município.
Fez o curso primário no Grupo Escolar “Pedro José Neto, dando continuidade tanto o ginasial como o colegial no antigo Instituto de Educação Bento de Abreu (Ieba).
Massafera ingressou no curso de Engenharia Civil na Universidade de São Paulo (USP) – campus de São Carlos. Durante seus estudos, despertou seu interesse pela política e passou a participar do movimento estudantil na faculdade.
Fez pós-graduação em Planejamento Urbano também pela USP e, em busca de mais especialização, cursou Políticas Públicas e Gerências de Cidades pela Unesp – Campus de Araraquara e MBA em Gerenciamento de Empreendimentos na Poli-USP de São Paulo.
Iniciou sua carreira profissional na área da Engenharia, tendo trabalhado em projetos estruturais e na construção civil, dirigindo importantes empresas do ramo, além de atuar no setor sucroalcooleiro.
Homem dinâmico, participou ainda de diversos projetos do setor de mineração e agropecuária.
Casou no ano de 1975 com Cristina Hegg e tem as filhas Heloisa e Beatriz.
É conceituado empresário no ramo da construção civil e agricultura.
Executivo
Iniciou sua vida política nas eleições de 1992, concorrendo e sagrando-se vencedor para exercer o cargo de prefeito municipal de Araraquara para a 8ª Legislatura (1993 a 1996).
Com um novo modo de governar, impôs sua dinâmica à Prefeitura e, com a promulgação da Lei Orgânica do Município, estruturou o Executivo com secretarias e os frutos de sua gestão começaram a ser colhidos com a instalação de indústrias, supermercados, entre outros.
Criou distritos industriais, instalou um complexo esportivo com a criação de escolinhas de esportes, criou o Terminal de Integração de passageiros, Caics etc. Também firmou convênio com o Fiesp/Ciesp visando a cooperação mútua para implantar e administrar um Núcleo de Desenvolvimento Empresarial – Projeto Incubadora.
Duplicou a Rodovia Manoel de Abreu entre Araraquara e Américo Brasiliense.
Propiciou a vinda de outras empresas como a Sachs, Philip Morris, entre outras.
Exerceu também o cargo de secretário-adjunto de Ciência e Tecnologia em Araraquara em 1987 e 1988.
Assembleia Estadual
Foi deputado estadual por três mandatos: 2007 a 2010, 2011 a 2014, e 2015 a 2019. Presidiu a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
Foi presidente da CPI da Fosfoetanolamina, entre outras atividades.
