Início Araraquara Psicanalista fala sobre aumento de casos de suicídio em Araraquara

Psicanalista fala sobre aumento de casos de suicídio em Araraquara

Situação acende um alerta sobre a assistência psicológica prestada na cidade

A psicanalista clínica, Juliana Garcia, falou ao O Imparcial sobre a onda de suicídios e tentativas de tirar a própria vida que vem preocupando a população de Araraquara nesse início de ano. Juliana é pós-graduanda em Neurociências no Albert Einstein.

No mês de fevereiro deste ano a Secretaria Municipal de Saúde de Araraquara manifestou preocupação em relação ao crescente número de casos de suicídios na cidade. É importante pensarmos este dado alarmante de forma multidisciplinar, levando o olhar para questões de saúde mental e também para avaliação de vulnerabilidades sociais, para falarmos de prevenção e cuidados primários a indivíduos em sofrimento. Antes do ato desesperado há alguém que sofre, e precisamos encontrar uma maneira de enxergar o sofrimento alheio, de nos sensibilizarmos socialmente a ele.

Para a psicanálise a ideação suicida não se trata apenas de “desejo de morrer”, mas uma tentativa, em última instância, de cessar a dor e sofrimento psíquico, advindo tantas vezes de traumas não simbolizados, desamparo e solidão. O que dói e não foi dito, não pôde ser ouvido, ou não foi visto e considerado.

Vivemos uma epidemia invisível de estresse e ansiedade, estamos a cada ano mais conectados e hiperestimulados digitalmente e mais solitários. Estudos recentes de neurociência nos mostram que o cérebro sob estresse crônico pode interpretar a possibilidade da morte como “solução” para a dor, a percepção de realidade é alterada drasticamente. Por uma falha no córtex pré-frontal, que é responsável por avaliar os riscos, se reduz a capacidade de encontrar outra alternativa para resolução de um conflito.

O comportamento suicida é uma resposta ao sofrimento insustentável, não é definitivamente uma escolha racional do indivíduo.

A nível nacional o aumento de casos de suicídio também é considerável, principalmente entre jovens, que são particularmente mais afetados pela desenfreada busca de padrões idealizados disseminados pelas mídias sociais, falta de suporte emocional familiar e diminuição da capacidade resiliente a frustração.

A redução do contato humano real nos impossibilita elaborar nossas emoções, e reduz nossa capacidade de perceber o sofrimento alheio também.

Prevenir o suicídio, preservar a vida, é nossa responsabilidade coletiva. Medidas como promover escuta ativa, acolhimento e validação das emoções, sem julgamentos, possibilitar atendimento profissional acessível a todas as classes econômicas, promover educação e informação, facilitando esse diálogo em escolas e empresas, são ações que ajudam a identificar sinais de alerta e cuidá-los pontualmente.

O suicida, em geral, não pretende terminar com a vida, mas com a dor insuportável. Que possamos dar ouvidos ao sofrimento, antes do ponto final da morte, possibilitarmos a vírgula na história de quem sofre.

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