Isabela Mattos/Colaboração
Outubro começa com um convite ao cuidado, à prevenção e à atenção à saúde das mulheres. Para quem recebe um diagnóstico de câncer, a doença deixa de ser apenas uma campanha no calendário e passa a fazer parte da própria história. Para Andréia Ferreira, de 41 anos, falar sobre o câncer é também falar sobre dor, reconstrução e sobre a força que encontrou na dança para continuar seguindo.
A dança entrou em sua vida por volta de 2008, quando fez sua primeira aula de zumba. Naquele período, enfrentava uma depressão profunda após o nascimento do filho. O que começou como uma atividade se transformou em um caminho de cuidado e reconstrução emocional. Anos depois, entre 2019 e 2023, Andréia viveu um relacionamento abusivo, marcado por agressões e pela perda da autoestima e da própria identidade. Mesmo diante das dificuldades, continuou dançando. Em 2022, fez o curso de FitDance, retomou o cuidado consigo mesma, iniciou a faculdade de Educação Física, que era um sonho antigo, e começou a se preparar para dar aulas.
Em 6 de novembro de 2024, veio o diagnóstico de câncer de mama. O medo e a insegurança deram início a uma nova batalha. Foi a partir dessa experiência que nasceu o projeto “Dança: Prevenção, Tratamento e Cura”, criado com a proposta de mostrar que a dança pode ser uma importante aliada no cuidado emocional durante um processo tão difícil.
Andréia continuou dando aulas durante o próprio tratamento e encontrou nos alunos, no trabalho e na dança uma rede de apoio. O projeto cresceu e chegou, no último domingo (27), à sua quarta edição.
Em 5 de agosto deste ano, sua mãe morreu vítima do câncer. A dor fez com que ela pensasse em cancelar a quarta edição do projeto. Ainda assim, decidiu seguir. Com o apoio de pessoas e parceiros, levou o evento adiante, justamente porque conhecia, na própria pele, o significado de ter algo que ajudasse a permanecer de pé nos momentos mais difíceis.
Na abertura do Outubro Rosa, sua história ganha ainda mais significado. Não apenas pelo diagnóstico que recebeu, mas por tudo o que veio antese depois dele: a violência, a perda da identidade, o tratamento, o luto e a reconstrução.
Nesta entrevista, Andréia fala sobre essas experiências e sobre como a dança se tornou o fio condutor de uma trajetória marcada por dores profundas, mas também pela capacidade de transformar a própria vivência em acolhimento e apoio para outras pessoas.
Imparcial: Antes do câncer, você viveu um relacionamento abusivo e sofreu violência. O que essa experiência fez com a sua relação com o próprio corpo? Em que momento a dança entrou ou ganhou força nesse processo de reconstrução?
Andréia: “Eu já vinha de uma depressão e tentava reconstruir minha vida quando entrei nesse relacionamento. A dança já fazia parte do meu processo de cura emocional. As agressões físicas, verbais e emocionais abalaram profundamente a forma como eu me enxergava. Fui perdendo novamente minha autoestima e minha identidade, e ele também usava meu peso para me humilhar e me fazer sentir ainda pior.
Mesmo assim, nunca parei de dançar. Em 2019, continuei como aluna e, em 2022, comecei a dar aulas como instrutora. Isso me fortaleceu muito, mesmo enquanto eu ainda vivia naquela relação. Em 2023, consegui me libertar e comecei novamente mais uma nova etapa da minha reconstrução pessoal.”
Imparcial: Quando você finalmente estava reconstruindo essa relação com o seu corpo, veio o diagnóstico de câncer. Como foi viver uma nova batalha justamente nesse corpo que você estava aprendendo a recuperar?
Andréia: “Quando eu estava começando a me reconstruir e a cuidar de mim, recebi o diagnóstico de câncer de mama, em 6 de novembro de 2024, na véspera do meu aniversário. Eu estava prestes a completar 40 anos, uma data que aguardava com muita expectativa. Já tinha emagrecido 36 quilos e finalmente me sentia bem comigo mesma. De repente, veio o diagnóstico. Foi como se Deus me dissesse: ‘Peraí, espera mais um pouquinho’.
Senti muito medo e insegurança diante de uma nova batalha e das mudanças que o tratamento traria para o meu corpo. Aos poucos, entendi que meu corpo não era meu inimigo: ele estava atravessando tudo aquilo comigo. Continuei dando aulas, e a dança me ajudou a reconhecer minha força e a me sentir viva para além da doença. Foi difícil, mas aprendi a olhar para o meu corpo com mais carinho e respeito por tudo o que ele enfrentou.”
Imparcial: Quando uma pessoa está em tratamento, muitas vezes passa a se enxergar principalmente como paciente. A dança pode ajudar a recuperar outras identidades: mulher, mãe, profissional, amiga? Como você percebeu isso na sua própria experiência?
Andréia: “Durante o tratamento, era fácil sentir que a doença ocupava todo o espaço e que eu era apenas uma paciente. Mas a dança me ajudou a lembrar que eu continuava sendo a Andréia: mulher, mãe, instrutora e estudante de Educação Física, com sonhos e planos. Quando eu dava aula, me conectava com as pessoas, com o meu trabalho e com aquilo que amo.
A dança também me ajudou a não me vitimizar diante do que estava acontecendo. Em alguns momentos, era como se eu até esquecesse que tinha câncer, não porque negasse a doença, mas porque conseguia me sentir inteira para além dela. Esse processo também me fez olhar para dentro e perceber o que eu queria melhorar em mim como pessoa e como ser humano.”
Imparcial: Você se lembra da primeira vez em que voltou a dançar depois do diagnóstico? O que sentiu naquele momento? O que a dança devolveu para você que a doença tentou tirar?
Andréia: “Eu nunca deixei de dançar. Durante todo o tratamento, precisei me afastar apenas duas vezes: uma para fazer a cirurgia de retirada do câncer de mama e a outra por causa de um efeito colateral muito forte.
Naquela época, minhas quimioterapias eram às quintas-feiras, justamente no dia em que eu tinha duas aulas seguidas de FitDance. Eu saía com o atestado na mão, mas ele ia para o lixo e eu seguia feliz e agradecida para dar minhas aulas. Muitas vezes, fui com dor e até chorando. Mas, quando pisava na sala, era como se algo se acendesse dentro de mim. Meus alunos nem percebiam o quanto eu estava sentindo dor ou me sentia fragilizada.
A dança não tirou a dificuldade do tratamento, mas me deu momentos em que eu podia ser eu mesma, estar com meus alunos e fazer aquilo que amo. Ela me devolvia alegria e força justamente quando eu mais precisava.”
Imparcial: Hoje, quando você recebe uma mulher na sua aula, você enxerga apenas alguém que veio dançar ou consegue perceber quando existe uma história de dor por trás daquela pessoa?
Andréia: “Eu não enxergo apenas uma mulher que veio aprender passos. Às vezes, ela chega sorrindo, mas ninguém sabe o que está carregando por dentro. Eu conheço o poder de encontrar na dança um lugar para respirar, se expressar e lembrar de si mesma.
Não quero presumir a história de ninguém nem invadir o espaço de cada aluna. Quero acolher com carinho e sem julgamentos. Para mim, uma aula pode ser muito mais do que dança: pode ser um momento em que aquela mulher se sente livre, forte e viva, mesmo que, por algumas horas, a dor fique um pouco mais distante.”
Imparcial: E quando você estava vivendo a sua própria história com o câncer, sua mãe também enfrentava a doença. Como foi assistir a essa batalha de outro lugar?
Andréia: “Viver o câncer como filha foi uma dor completamente diferente. Eu conhecia o medo da doença pela minha própria experiência, mas, dessa vez, era minha mãe quem enfrentava um câncer metastático. Em apenas quatro meses, meus medos e minhas inseguranças voltaram com força. Mesmo assim, ao lado dela, procurei ser forte. Eu queria que ela sentisse que podia contar comigo e que eu estava ali para cuidar e apoiá-la. Por dentro, eu também sentia medo, mas tentava transmitir força para ela.
Hoje, acredito que Deus permitiu que eu passasse por essa experiência antes para que eu pudesse acolher minha mãe, cuidar dela e proteger suas emoções quando chegou a vez dela enfrentar a doença. Cuidei dela e estive ao seu lado até o último suspiro, que ela deu nos meus braços, no dia 5 de agosto. Eu tinha vencido o câncer, mas não podia lutar essa batalha por ela. É uma dor que ainda carrego: eu venci o câncer, mas o câncer venceu a minha mãe.”
Imparcial: No último domingo (27) aconteceu a 4ª edição do Projeto “Dança: Prevenção, Tratamento e Cura”, no Clube 22 de Agosto. Como nasceu esse projeto, que tem sido um sucesso a cada edição?
Andréia: “O projeto Dança: Prevenção, Tratamento e Cura nasceram depois que recebi o diagnóstico de câncer de mama, em 6 de novembro de 2024. Durante esse período, percebi o quanto a dança me ajudava emocionalmente e me dava força para continuar. Então pensei: se ela estava me ajudando, talvez também pudesse acolher outras pessoas passando por momentos difíceis.
Assim, transformei uma parte da minha própria experiência em um projeto para levar dança, conscientização e apoio. A primeira edição aconteceu em março de 2025. Desde então, cada edição reúne pessoas em torno da dança e da mensagem de que, mesmo depois de um diagnóstico, ainda pode existir vida, força e esperança.”
Imparcial: Existe algo que tenha te marcado profundamente em cada uma dessas edições?
Andréia: “Entre todas as edições, a terceira foi a que mais me marcou. Em quase cinco anos dando aulas, muitas vezes senti falta de ter minha mãe me assistindo, me apoiando e me incentivando. Não sei se era falta de interesse ou se ela não entendia o quanto a presença dela significava para mim, principalmente quando eu estava saudável e sonhando em viver esse momento.
Mas, justamente quando eu estava tratando o câncer, ela foi me assistir. Naquela manhã de domingo, durante a terceira edição do projeto, minha mãe me viu pela primeira e única vez no palco, fazendo aquilo com que sonhei desde criança: dançar e dar aulas. Talvez, por eu estar doente, ela tenha percebido o quanto aquele momento era importante. Hoje, essa lembrança é preciosa e também dói, porque eu queria ter vivido muitos outros momentos assim com ela. Mas sou muito grata por ela ter estado ali naquela manhã.”
Imparcial: Para encerrar, se a dança foi uma parte importante da sua reconstrução, o que você acredita que ela pode reconstruir na vida de outras pessoas através do Projeto “Dança: Prevenção, Tratamento e Cura” e da sua própria história?
Andréia: “Se a dança foi tão importante na minha reconstrução, eu acredito que ela também pode ajudar outras pessoas a reencontrarem partes de si que a dor, o medo ou um diagnóstico fizeram ficar em silêncio. Através do projeto “Dança: Prevenção, Tratamento e Cura”, quero oferecer acolhimento, esperança e a oportunidade de cada pessoa se sentir viva, capaz e acompanhada.
A dança não apaga o que a gente viveu e não substitui o tratamento, mas pode nos ajudar a seguir em frente com mais força. Para mim, cada passo carrega uma mensagem: a nossa história não termina na dor. Ainda podemos nos reconstruir, sonhar e encontrar alegria no caminho”, finalizou.
Agradecimentos
Ao falar sobre trajetória, Andréia também fez questão destacar o apoio do atual marido, Gustavo Braghini, que esteve ao seu lado durante os exames, consultas e sessões de quimioterapia, sendo o seu principal apoio nos momentos em que pôde deixar de lado a força que mostrava diante das outras pessoas. Ela também agradeceu aos apoiadores, patrocinadores, parceiros e profissionais que acreditaram no projeto desde a primeira edição e ajudaram a transformar uma experiência marcada pela dor em um propósito de acolhimento e esperança.
Sobre o projeto “Dança: Prevenção, Tratamento e Cura”
A intenção é seguir para a quinta edição e manter viva uma iniciativa que nasceu de sua própria luta, mas que, com o tempo, passou a alcançar outras pessoas por meio da dança, da prevenção e da esperança. Ainda não há data definida para a quinta edição do evento.
