As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros não devem afetar igualmente os municípios da região central paulista. Enquanto cidades cuja pauta exportadora é concentrada em produtos isentos tendem a sofrer impactos limitados, outras, mais dependentes da indústria de transformação, podem enfrentar perdas de competitividade no mercado norte-americano.
A avaliação é da economista Maria Clara Kirsch, do Núcleo de Economia do Sincomercio Araraquara, que analisou a pauta de exportações dos principais municípios da região para identificar quais setores estão mais expostos às medidas. Segundo a economista, o efeito não será uniforme porque depende da composição das exportações de cada município.
“As tarifas não atingem todos os produtos da mesma forma. As exceções concedidas pelos Estados Unidos preservam segmentos importantes para nossa região, como o suco de laranja e o setor aeronáutico. Por isso, algumas cidades tendem a sentir menos os efeitos, enquanto outras, com maior participação de produtos industriais, podem enfrentar uma perda maior de competitividade”, explica Maria Clara.
Entre janeiro e junho deste ano, quatro municípios da região figuraram entre os 18 maiores exportadores paulistas para os Estados Unidos: Gavião Peixoto, Matão, Araraquara e São Carlos. A análise mostra que Gavião Peixoto apresenta a menor vulnerabilidade, devido ao peso das exportações ligadas ao setor aeronáutico, um dos segmentos beneficiados pelas exceções tarifárias. Em Matão e Araraquara, o principal produto exportado é o suco de laranja, também preservado pelas medidas, o que limita os efeitos imediatos sobre a maior parte das vendas externas desses municípios.
Isso não significa, porém, que Matão e Araraquara estejam totalmente protegidas. Os reflexos tendem a se concentrar em empresas ligadas à produção de óleos essenciais, bombas, peças e outros equipamentos industriais. Embora tenham participação menor na pauta exportadora municipal, as empresas desses segmentos podem enfrentar perda de competitividade, redução de margens ou necessidade de renegociar contratos.
Entre os municípios analisados, São Carlos é o que apresenta maior exposição às novas tarifas. Sua pauta exportadora é composta principalmente por bens manufaturados, como lápis, ferramentas, motores, turbinas, compressores e outros equipamentos industriais, que não aparecem entre as principais exceções. Nesse caso, o aumento tarifário pode comprometer mais diretamente a competitividade dos produtos no mercado estadunidense.
Apesar do cenário de maior incerteza para alguns segmentos, a economista ressalta que ainda é cedo para projetar efeitos mais amplos sobre emprego e atividade econômica.
“Neste momento, o mais provável é que as consequências ocorram de forma concentrada em empresas e setores com maior dependência do mercado norte-americano. Antes de reduzir postos de trabalho, as empresas costumam buscar alternativas como renegociação de contratos, absorção de parte dos custos e abertura de novos mercados”, afirma Maria Clara.
Em Porto Ferreira e em outros municípios com perfil industrial, a análise também deve considerar as características de cada setor. Empresas que exportam produtos manufaturados sujeitos às tarifas tendem a enfrentar maior pressão do que aquelas ligadas a itens isentos. Mesmo cidades que exportam pouco diretamente podem ser atingidas por meio de fornecedores, transportadoras, prestadores de serviços e outras empresas integradas às cadeias exportadoras.
As linhas de crédito e demais instrumentos disponibilizados pelo Governo Federal podem ajudar as empresas a preservar capital de giro, manter a produção e atravessar um período de maior instabilidade. O Plano Brasil Soberano contempla exportadores, fornecedores e setores industriais afetados pelas tarifas, com mecanismos de financiamento operados pelo BNDES.
No entanto, o crédito funciona principalmente como uma medida de transição. Ele reduz os efeitos imediatos, mas não substitui a demanda perdida nem garante que todas as empresas conseguirão manter seus volumes de exportação. Para ser efetivo, o apoio financeiro precisa estar acompanhado de ações voltadas à promoção comercial, ao acesso a novos compradores, à adaptação dos produtos e à abertura de mercados.
“A diversificação de mercados deixa de ser apenas uma estratégia de crescimento e passa a ser uma forma de minimizar riscos. Empresas menos dependentes de um único destino tendem a enfrentar com mais resiliência mudanças nas regras do comércio internacional”, conclui.
