Início Araraquara Ludopatia: O vício em jogos de apostas que afeta jogadores e famílias

Ludopatia: O vício em jogos de apostas que afeta jogadores e famílias

Vereador Alcindo Sabino (PT) defende que o problema seja tratado como questão de saúde pública, com prevenção, acolhimento e acompanhamento profissional

Isabela Mattos/Colaboração

A popularização das plataformas de jogos on-line tem ampliado o debate sobre ludopatia, que é o transtorno caracterizado pela compulsão por jogos de azar, que pode provocar endividamento, conflitos familiares e problemas de saúde mental. A condição exige atenção do poder público, ações de prevenção e acesso ao tratamento.

Em 25 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou a Medida Provisória nº 1.394/2026, que “proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de loterias de apostas de quota fixa no território nacional”. A Medida Provisória prevê a retirada das plataformas do ar e busca enfrentar problemas como o endividamento das famílias e o vício em apostas.

Em Araraquara, o vereador Alcindo Sabino (PT) também atua nessa discussão. Dois projetos de sua autoria relacionados ao tema foram aprovados pela Câmara Municipal: o Projeto de Lei nº 273/2025 de autoria dos vereadores Alcindo Sabino, Enfermeiro Delmiran e Maria Paula, institui e inclui no Calendário Oficial de Eventos do Município o “Dia Municipal de Conscientização sobre a Ludopatia” e o Projeto de Lei nº 305/2026, que tornou obrigatória a afixação de cartazes de conscientização sobre a ludopatia (vício em jogos e apostas).

Em entrevista ao Jornal Imparcial, o parlamentar fala sobre a importância de reconhecer a ludopatia como uma questão de saúde pública, os caminhos para buscar atendimento na rede municipal, os riscos da dependência entre adolescentes e a necessidade de ampliar ações de conscientização.

Leia a entrevista na íntegra:

Imparcial: Na audiência pública “Conscientização Sobre a Ludopatia: Vício em Jogos e Apostas”, realizada em novembro de 2025, o psicólogo e pesquisador (HC-USP), Edilson Braga, chamou atenção para o fato de que a ludopatia é uma dependência comportamental e pode provocar mecanismos de compulsão semelhantes aos observados em outras dependências. Isso muda a maneira como o poder público deve enxergar o problema?

Alcindo Sabino: “Sim. Precisamos tratar a ludopatia como um problema de saúde pública, com prevenção, acolhimento e tratamento. Não podemos reduzir o sofrimento de uma pessoa à falta de força de vontade. O poder público precisa preparar suas equipes para identificar essa dependência e apoiar também as famílias.”

Imparcial: Ainda na audiência pública, o psicólogo Edilson Braga também chamou atenção para o crescimento de casos de dependência em jogos e apostas entre adolescentes. Você acredita que é preciso levar essa discussão para as escolas? De que forma isso poderia ser feito?

Alcindo Sabino: “Sem dúvidas, as escolas são fundamentais para a prevenção. Podemos promover rodas de conversa, atividades sobre os riscos das apostas e orientação para professores e responsáveis, em parceria com profissionais de saúde. É preciso discutir também a publicidade nas redes sociais e a promessa enganosa de dinheiro fácil, com uma linguagem adequada a cada idade.”

Imparcial: Quando falamos de vício em jogos e apostas, estamos falando de um problema de saúde pública. Hoje, quem procura ajuda em Araraquara por dependência em jogos, encontra qual caminho dentro da rede pública?

Alcindo Sabino: “A pessoa pode procurar sua unidade de saúde para acolhimento e orientação. O CAPS AD também é indicado pelo município como referência para quem enfrenta problemas com jogos e apostas. Temos também o App ” Meu SUS digital” que oferece ajuda e tratamento. Precisamos divulgar melhor esse caminho e garantir acompanhamento, porque reconhecer o problema é apenas o primeiro passo. Nosso mandato aprovou uma Lei que obriga os espaços particulares de saúde a colocarem cartazes incentivando as pessoas a buscarem tratamento.”

Imparcial: Em 25 de setembro, o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, assinou uma Medida Provisória (MP) que proíbe o funcionamento das casas de apostas, as chamadas bets. De acordo com o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, “as bets entram nas casas das pessoas, nas escolas e nos celulares, e afeta não apenas quem desenvolve um comportamento compulsivo, mas também familiares”. Você tem conhecimento de quantas pessoas procuram a rede pública de Araraquara por problemas relacionados às apostas?

Alcindo Sabino: “Não tenho um número consolidado para apresentar com segurança. Há registro público de que o CAPS AD já recebia casos relacionados às apostas desde 2025. Precisamos de um levantamento atualizado da Secretaria Municipal de Saúde para conhecer a demanda e planejar o atendimento.”

Imparcial: O fim das bets é algo positivo, mas isso não basta. Existe na rede municipal uma estrutura capaz de lidar com todas as consequências causadas pelo vício? Na última semana, você esteve com o Ministro Padilha em Ribeirão Preto. O que você propôs sobre o tema?

Alcindo Sabino: “A proibição das bets é uma medida importante, mas as consequências da dependência continuam e exigem cuidado. Araraquara tem uma rede de saúde mental, porém precisamos avaliar sua capacidade, capacitar as equipes e fortalecer o atendimento às pessoas e às famílias. Não seria responsável afirmar que a estrutura atual consegue atender toda a demanda sem conhecer os dados.

Levei ao Ministro Padilha a necessidade de divulgar mais os serviços que o SUS oferece para o acolhimento e tratamento, ele gravou um vídeo e se comprometeu a fazer uma campanha nacional sobre o tema.”

Imparcial: Você foi um dos autores do Projeto de Lei que instituiu no Calendário Oficial de Eventos de Araraquara o “Dia Municipal da Conscientização da Ludopatia”, que passa a ser comemorado anualmente no dia 12 de novembro. Por que essa data foi escolhida e o que representa além de uma campanha de conscientização?

Alcindo Sabino: “A data de 12 de novembro cria um compromisso anual de dar visibilidade ao problema e informar a população sobre onde buscar ajuda. Mas nosso objetivo vai além de uma campanha: queremos prevenção permanente, profissionais preparados e acesso ao tratamento durante o ano inteiro. A criação da data foi uma iniciativa conjunta minha, da vereadora Maria Paula (PT) e do vereador Enfermeiro Delmiran (PL).”

Imparcial: Para encerrar, o que você diria para uma pessoa que está lendo esta entrevista e percebe que perdeu o controle sobre as apostas, mas ainda sente vergonha de procurar ajuda?

Alcindo Sabino: “Você merece cuidado, não ser julgado. A dependência em apostas tem tratamento, e pedir ajuda é um gesto de coragem. Procure sua unidade de saúde ou o CAPS AD e, se puder, converse com alguém de confiança. Você não precisa esperar perder mais dinheiro ou ver sua vida desmoronar para buscar apoio. Sua vida vale muito mais do que qualquer aposta”, finalizou.

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