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Pele Alvo: 64,8% das vítimas da letalidade policial, em 2025, eram jovens negros de até 29 anos

São Paulo voltou a bater recorde de letalidade policial, com 834 mortes em 2025, mesmo em um contexto de redução dos principais indicadores criminais

A Rede de Observatórios da Segurança lança, no dia 1º de julho, a sétima edição anual do Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã, estudo que monitora dados de letalidade policial fornecidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pelas secretarias de segurança de nove estados — Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo — para revelar as desigualdades cometidas contra a população negra e fomentar o debate público dessa questão.

Em análise dos dados de 2025, o estudo identificou um aumento de 6,4% na letalidade policial (4.330 mortes somadas nos nove estados monitorados) em relação ao ano anterior, além de escancarar a centralidade do racismo estrutural na atuação das forças estatais, sendo este um fato conclusivo também em todas as edições anteriores do Pele Alvo. Considerando apenas os dados com informações de raça/cor, 86,3% das vítimas (3.104 pessoas) eram negras. O perfil das vítimas da letalidade policial também revela um recorte geracional, territorial e de gênero bastante definido: jovens de até 29 anos representam 64,8% do total de mortos (2.804 vítimas), vivem majoritariamente em periferias e favelas e, em sua imensa maioria, são homens.

“Os dados mostram que não estamos diante de uma fatalidade ou de casos isolados. Ano após ano, a principal vítima da letalidade policial continua sendo a juventude negra das periferias. Se esse padrão se repete há sete edições do Pele Alvo, totalizando 28.799 mortes, fica evidente que ainda não existe uma política pública efetiva voltada para proteger essas vidas”, afirma Silvia Ramos, cientista social e diretora da Rede de Observatórios da Segurança.

Dentro do grupo de vítimas de 2025, as crianças e os adolescentes até 17 anos somaram 312, evidenciando infâncias e juventudes interrompidas mesmo quando o Estado sustenta discursos de eficiência na segurança pública, frequentemente associados a investimentos em tecnologia, inteligência e ampliação do aparato policial.
 

Além dos dados quantitativos, esta edição traz uma perspectiva metodológica baseada na escuta social, destacando-se a entrevista com Lucia Cabral, conhecida também como Tia Lucia. A líder comunitária e fundadora do Espaço Democrático De União, Convivência, Aprendizagem e Prevenção (Educap) no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, relata o impacto profundo da violência cotidiana nas favelas.

Com base nas taxas de mortes decorrentes de intervenção policial por 100 mil habitantes, calculadas separadamente para a população negra e branca, observou-se que, na média dos estados monitorados, pessoas negras sofrem quatro vezes mais risco de serem mortas pela polícia do que as pessoas brancas.

Vítimas de mortes decorrentes da intervenção policial – 2025 (taxa por 100 mil habitantes, negros e brancos)

O relatório destaca a opacidade e a qualidade dos dados fornecidos pelas secretarias de segurança pública. Estados como Maranhão e Ceará utilizam a categoria “não informado” para ocultar o perfil racial de, respectivamente, 54,9% e 57,5% de suas vítimas. A pesquisa comprova que, à medida que o governo estadual qualifica a coleta e preenche os dados corretamente, o recorte racial fica ainda mais nítido, sendo a falta destas informações não apenas uma falha burocrática, mas uma omissão que insiste em invisibilizar o recorte racial da letalidade estatal. Quando o Maranhão passou a informar melhor, a proporção de negros mortos disparou 22 pontos percentuais no estado. No Ceará, nas mesmas circunstâncias, a alta foi de 8 pontos.

O monitoramento aponta que a dinâmica da letalidade policial tem se reconfigurado com a expansão e articulação de facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) em direção às regiões Norte e Nordeste, desencadeando respostas governamentais baseadas exclusivamente na lógica da militarização e do confronto. Como resultado, quatro estados registraram o maior número de mortes de suas séries históricas desde 2019: Ceará (200), Maranhão (142), Pará (632) e São Paulo (834).

Amazonas

O estado registrou 43 mortes decorrentes de intervenção policial em 2025, repetindo exatamente o número do ano anterior e mantendo o menor patamar de sua série histórica, totalizando 535 vítimas em sete anos. Mesmo assim, a letalidade segue marcada por forte desigualdade racial: pessoas negras representam 96% das vítimas, a maior proporção entre todos os estados monitorados. Também chama a atenção a ausência de reconhecimento oficial de vítimas indígenas, justamente em um estado onde 12,5% da população se autodeclara indígena.

Outro aspecto relevante é a interiorização da violência policial. As mortes se espalharam de 10 para 16 municípios, e o interior passou a concentrar 62,8% dos casos, enquanto a capital Manaus respondeu por 37,2% das vítimas. O município de Coari, sozinho, concentrou 16,3% das mortes do estado, embora reúna apenas 1,6% da população. As vítimas são majoritariamente jovens, e a Polícia Militar foi responsável por 75% das ocorrências.

Bahia

Embora com queda em relação ao recorde do ano anterior de 1.702 mortes, o estado contabilizou 1.570 mortes em 2025 e registrou mais de 1 mil mortes pelo quinto ano consecutivo. A população negra compõe 79,7% dos habitantes da Bahia, mas representa 93,9% das vítimas da letalidade policial, com 1.243 mortes. A comparação entre a composição racial da população e a das vítimas evidencia a sobrerrepresentação de pessoas negras entre os mortos pela polícia, revelando o impacto desproporcional da letalidade estatal sobre esse grupo.

O território vive sob constante tensão devido à disputa de mais de 20 facções por rotas e pontos de venda de drogas, e a letalidade é altamente concentrada. Entre os 417 municípios, 12 acumulam metade das vítimas e, dos 365 dias do ano, 346 registram mortes. O principal alvo geracional são pessoas de 18 a 29 anos que, no ano passado, concentraram mais de 1 mil mortes. Em sete anos, a polícia baiana matou 8.743 pessoas, superando os outros estados monitorados.
 

Ceará

O estado atingiu o maior número de mortes de sua série histórica desde 2019: 200 vítimas em 2025. No período monitorado de sete anos (2019-2025), o Ceará contabiliza 1.094 mortos, registrando um crescimento de 47,1% na letalidade. Jovens negros têm três vezes mais risco de morrer por intervenção policial no estado do que jovens brancos. Pessoas negras representaram 87,1% dos mortos.

Em 2026, o cenário está sendo agravado pela aprovação de um decreto do governador Elmano de Freitas, que alterou a classificação técnica das ocorrências. A nomenclatura mudou de “mortes por intervenção policial” para “lesão corporal/homicídio decorrente de oposição à intervenção”. A medida enquadra legalmente a vítima como “opositor” e o policial como “interventor” (e não mais “autor”), chegando ao ponto de a morte ser autorizada pelo Estado.

Maranhão

O estado registrou 142 mortes em 2025, maior número de sua série histórica, consolidando uma escalada de longo prazo – em 2015 o estado anotou 53 casos, quase triplicando o número de letalidade em uma década. Em sete anos, o Maranhão acumula 628 mortes provocadas por policiais, com pessoas negras representando 92,2% das vítimas identificadas, acima de sua proporção (79,0%) na população do estado. O cenário é agravado por um crescimento expressivo da letalidade, que aumentou 86,8% em apenas um ano em relação aos 76 registros contabilizados em 2024, fenômeno associado à interiorização de facções oriundas do Sudeste, como CV e PCC, que passaram a disputar e controlar rotas de escoamento em aliança com grupos locais.

No Maranhão, mais da metade dos casos (50,7%) concentrou-se em apenas 11 municípios, e um perfil de vítimas que reforça a seletividade da letalidade, pois 67,6% do total de mortos tinham 29 anos ou menos. Dos 217 municípios do estado, 40% das letalidades ocorreram em 35 deles, muitos com menos de 15 mil habitantes, evidenciando também a interiorização dessa violência. A Polícia Militar foi responsável por 83,1% dos óbitos registrados.

Pará

Os números de vítimas pela letalidade policial no estado contrastam com os discursos de sustentabilidade e inclusão reforçados em 2025, ano em que Belém sediou a COP30. Enquanto a narrativa oficial destacava iniciativas como Usinas da Paz – um complexo de cidadania e inclusão social do Governo do Pará –, a letalidade policial cresceu, concentrando-se especialmente na Região Metropolitana: Belém, Ananindeua e Marituba somaram 193 vítimas, quase um terço do total do estado. O perfil dos mortos mais uma vez revela a seletividade dessa violência: 418 estavam na faixa de 12 a 29 anos, e a Polícia Militar foi responsável por 89,7% das mortes registradas oficialmente.

Ao todo, o Pará anotou 632 mortes decorrentes de intervenção policial em 2025, 35 a mais do que no ano anterior e o maior número da série histórica. Em sete anos, o estado acumula 4.028 vítimas da letalidade policial, além de 19 homicídios cometidos por agentes estatais fora de situações de confronto. A população negra segue como a principal atingida: ela soma 79,7% dos habitantes, mas representa 93,3% das vítimas, com 516 mortes. O estado também apresentou a segunda maior taxa de letalidade policial contra pessoas negras entre os estados monitorados, sendo 8 por 100 mil habitantes.

Pernambuco

Em Pernambuco, os dados de 2025 expõem a incongruência entre o discurso oficial e a realidade da segurança pública. Enquanto o governo estadual atribui a redução das Mortes Violentas Intencionais (MVI) ao programa Juntos pela Segurança (projeto que visa integrar diferentes esferas do governo, estados e municípios, além da sociedade, para combater a criminalidade e reduzir a violência) e aos investimentos em tecnologia, inteligência e ações policiais, as mortes decorrentes de intervenção policial cresceram 30,9% em relação ao ano anterior, com 89 mortes. Essa discrepância levanta questionamentos sobre os limites da narrativa de preservação da vida. Em sete anos, foram 657 vítimas, crescimento de 20,3% no período.
 

O perfil das vítimas revela quem continua sendo mais afetado por essa violência. Pessoas negras (65,3% da população) foram quase todos os mortos pela polícia: 94,4%, percentual respaldado por registros com preenchimento integral de raça ou cor. Além disso, negros correm 11 vezes mais risco de serem mortos pela polícia do que outros. A letalidade também atingiu principalmente a juventude: 71,9% das vítimas tinham até 29 anos.

Piauí

O relatório associa a queda dos índices de 2025 a iniciativas como a criação da Superintendência de Promoção da Igualdade Racial e a adoção de protocolos antirracistas na Polícia Militar do estado. No entanto, alerta para o crescimento de mortes ocultas no Piauí por causas indeterminadas que revelam tendência crescente e paralela à diminuição estatística dos homicídios. Mais da metade das vítimas tinha entre 18 e 29 anos (55%), e 65% delas morreram em confronto com a Polícia Militar.

O Piauí registrou 20 mortes decorrentes de intervenção policial no ano passado e foi o único estado monitorado a apresentar redução da letalidade policial, com queda de 16,7% em relação ao ano anterior. Em sete anos, o número de vítimas caiu 52,4%, atingindo o menor patamar da série histórica. Mesmo com a redução, a desigualdade racial permanece: as pessoas negras representam 77,1% da população do estado, mas correspondem a 85% das vítimas.

Rio de Janeiro

A Operação Contenção, realizada nos Complexos da Penha e do Alemão em outubro de 2025, tornou-se um retrato da política de segurança baseada no confronto. A utilização do termo “narcoterroristas”, assim como a associação dos mortos à chamada “chacina do Alemão”, reflete a normalização da violência extrema como elemento estruturante da segurança pública fluminense.

Os dados reforçam esse cenário: em 2025, o Estado contabilizou 800 mortes provocadas por agentes públicos de segurança, incluindo duas vítimas com idade entre 0 e 11 anos, mostrando um aumento de 13,8% em relação ao ano anterior e acumulando 8.119 vítimas em sete anos de monitoramento. Mais da metade das mortes por intervenção policial (56,3%) ocorreu na capital, e a letalidade segue marcada por forte desigualdade racial, já que pessoas negras representam 57,8% da população, mas correspondem a 89,5% das vítimas. A taxa de letalidade policial foi de 6,3 mortes por 100 mil habitantes negros, contra 1,1 entre brancos, o que significa que o risco de uma pessoa negra ser morta pela polícia do Estado é seis vezes maior do que o de uma pessoa branca.

São Paulo

A política de segurança pública evidencia um descompasso no uso da tecnologia. Enquanto ferramentas de monitoramento, como o Smart Sampa, são utilizadas para reforçar indicadores de produtividade e prisões, as transmissões de câmeras corporais do programa Olho Vivo são frequentemente interrompidas em momentos decisivos, contrariando determinações do Supremo Tribunal Federal (STF). O cenário é especialmente relevante porque a adoção das câmeras demonstrou ser capaz de reduzir a letalidade policial, já que as mortes caíram de 814, em 2020, para 419, em 2022, mas voltaram a crescer até atingir o recorde atual de 834 mortes registradas em 2025, uma alta de 2,7% em relação ao ano anterior, acumulando 4.774 vítimas em sete anos.

O aumento ocorreu mesmo em um contexto de queda de crimes relevantes, como furtos, roubos e latrocínios, sugerindo que a elevação da letalidade não acompanha necessariamente a dinâmica criminal, mas reflete escolhas na condução da política de guerra de segurança pública. A capital concentrou 30,5% das ocorrências. As pessoas negras representam 40,9% da população paulista, mas correspondem a 64,6% das vítimas fatais da ação policial.

Sobre a Rede de Observatórios da Segurança

A Rede de Observatórios é uma iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) dedicada a acompanhar políticas públicas de segurança, fenômenos de violência e criminalidade em nove estados. Atuamos na produção cidadã de dados com rigor metodológico em parceria com instituições locais e sociedade civil. O objetivo é monitorar e difundir informações sobre segurança pública, violência e direitos humanos.

Integram a Rede o Coletivo de Pesquisa e Extensão ILHARGAS, do Amazonas; a Iniciativa Negra Por Uma Nova Política de Drogas, da Bahia; o Laboratório de Estudos da Violência (LEV), do Ceará; a Rede de Estudos Periféricos (REP), do Maranhão; o Grupo de Pesquisa Mãe Crioula, do Pará; o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), de Pernambuco; o Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens (NUPEC), do Piauí; e o Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP), de São Paulo.

Agência Lema

Leandro Matulja / Leticia Zioni / Guilherme Maia

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