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Vera, botta, 80

Artigo

Fernando Passos*

Conversando com a amiga e profes-
sora Helena De Lorenzo, concor-
damos: é muito difícil sintetizar

em poucas palavras quem é essa extra-
ordinária mulher chamada Vera Botta.

Araraquarense, nascida a 25 de março

de 1945 filha de grande educadora e alfa-
betizadora, Sra. Edith Silveira Botta e do

lendário trabalhador da Casa Barbieri, Sr.
Alfredo Botta. Vera, e a irmã Suely, foram
alfabetizadas com muito rigor pela mãe.

Além disso, a formação religiosa na Igre-
ja Presbiteriana da rua 4 sedimentou esse

caráter determinado ao trabalho, da Vera.
Anos atrás estive presente em sua festiva

posse da na Academia Brasileira de Ciên-
cias Econômicas, Políticas e Sociais, com

sede no Rio de Janeiro, instituição com
forte ligação presbiteriana.

Vera Lúcia Silveira Botta Ferrante é licen-
ciada em Ciências Sociais pela UNESP,

onde se tornou professora, doutora e li-
vre docente. Em 01 de fevereiro de 2000

aceita o desafio de criar e coordenar o

programa de pós-graduação em Desen-
volvimento Territorial e Meio Ambiente,

da UNIARA, sendo hoje Pró Reitora em

Pós-Graduação Strictu Sensu da Institui-
ção. Pertence ao corpo editorial da revis-
ta Retratos dos Assentamentos. Venceu

em 1978 o prêmio Visconde de Cairu,
do Instituto Roberto Simonsen pelo livro
“FGTS: ideologia e repressão”.
Ousada, incansável, formou gerações,
tornando-se referência por estudar temas
que poucos tinham e ainda têm coragem
de enfrentar, pois carregam conflitos por
não estarem em conformidade com as
visões mais tradicionais da ciência ou
mesmo da vida. Sua tese de doutorado “O

estatuto do trabalhador rural e o Funru-
ral: ideologia e realidade” em 1973, sob

orientação de ninguém menos que He-
leyeth Saffioti, já naquela oportunidade

analisava a complexa e histórica trama de

relações que resultaram da lenta penetra-
ção da legislação trabalhista no campo,

por meio de seus dois de seus instrumen-
tos legais—O Estatuto do Trabalhador

Rural e o Funrural. Mas foi a partir de
seu pós-doutorado, realizado em 1984 na
Universidade Autônoma do México, que
sua linha mais pronunciada de pesquisa
começa a se desenvolver: a trajetória de

vida e lutas dos trabalhadores rurais pau-
listas. É em 1984 que eclodem as famosas

greves de bóias-frias (a partir de maio, em
Guariba) e o olhar arguto da socióloga se

voltará para esses fatos buscando com-
preendê-los à luz do desenvolvimento capitalista da região e suas contradições.
A ousadia prosseguiu ao eleger questões

sobre os assentamentos rurais e as ques-
tões agrarias como os temas de estudos

de sua vida.

Criou, o Núcleo de Estudos e Docu-
mentação Rural – o Nupedor onde co-
ordena pesquisas sobre os desafios da

questão agraria no Brasil, a reforma
agrária, contradições, conflitos com as

políticas e problemas sobre a regula-
mentação de lotes assentados; questões

de gênero nos assentamentos (quando

ninguém ousava se arriscar neste deba-
te); segurança alimentar nos assenta-
mentos, produção, comercialização dos

produtos produzidos nos assentamen-
tos rurais, dentre muitos outros. Mais

recentemente aos seus estudos se incor-
poraram as questões da agroecologia e

ambientais, tais como a qualidade da

água e qualidade de vida nos assenta-
mentos. Assim, valorizando temas re-
lacionados aos despossuídos da terra,

Vera foi criando um mundo cientifico
de resistências e de resiliências que foi
se consolidando e se fortalecendo pelo

rigor cientifico e alta qualidade empíri-
ca dos seus estudos.

O programa de Pós criado pela Vera na
UNIARA, hoje composto de Mestrado e
Doutorado, foi extremamente inovador
ao relacionar desenvolvimento e meio

ambiente, tema que se descolava do mun-
do da sociologia, articulando outras áreas

do conhecimento como a economia, as
políticas públicas, a biologia, as ciências
ambientais, desenvolvendo área cientifica

altamente inovadora por ter como amal-
gama metodologias interdisciplinares,

com resultados extraordinários e retorno

social do conhecimento. Para os inúme-
ros seminários e reuniões cientificas cole-
tivas ela trouxe, e ainda traz para o debate,

intelectuais de várias instituições, assen-
tados, sindicalistas, trabalhadores rurais,

sempre com muita força de presença e
coerência de princípios e de vida, estudos
que se tornam, cada vez mais, clássicos da
literatura sobre questões agrarias e sobre

assentamentos rurais e temas das vulne-
rabilidades sociais. Quem trabalha com a

Vera não se cansa de admira-la também
pela lealdade e fraternidade. É difícil
nos dirigirmos a alguém classificando-a

como pessoa fraterna. Com Vera essa di-
ficuldade inexiste.

Por final impossível não destacar sua re-
levante e intensa atividade política em

nossa cidade, tendo sido eleita vereado-
ra no município por duas vezes (1996 e

2000). Sua incidência sobre a vida públi-
ca foi marcada pelo intenso debate sobre

questões sociais e políticas durante mui-
tos anos.

Vera é mãe de Gustavo que lhe deu dois

netos, Helena e Antônio. Não é difícil di-
zer serem os amores atuais da Vera, di-
vidindo-os com a intensa vida acadêmica

que a própria família tanto admira. Grato
Vera por 80 anos tão bem vividos a favor
da sociedade brasileira. Uma das grandes

araraquarenses de nossos tempos certa-
mente.

*Advogado, Professor, Coordenador do
Curso de Direito da Uniara e colunista do
Imparcial Araraquara

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