Por José Augusto Chrispim
A ex-ministra do Planejamento e Orçamento do governo Lula, Simone Tebet (PDT) esteve em Araraquara na última quinta-feira (20), onde cumpriu agendas de campanha e participou do lançamento da candidatura a deputado federal do ex-prefeito de Araraquara, Edinho Silva (PT).
Simone concedeu entrevista exclusiva ao O Imparcial, onde falou sobre as suas principais propostas como candidata à uma vaga no Senado e sobre a importância de ter o araraquarense Marcelo Barbieri como companheiro na disputa, pois, acredita que ele é um grande municipalista e profundo conhecedor do interior do estado de São Paulo, já que, além de ter governado Araraquara por dois mandatos, foi presidente da Associação Paulista de Municípios e da Associação dos Prefeitos da Região Central.
Em pesquisa Quaest divulgada na última terça-feira (25), Simone Tebet aparece com 11% das intenções de votos logo atrás de Marina Silva (Rede) que tem 12%, assim como o deputado federal Guilherme Derrite (PP).
Veja a entrevista na íntegra:
O Imparcial: Quais suas principais propostas como candidata ao Senado?
Simone: “Primeiro quero mostrar a importância de São Paulo para o futuro do Brasil, pois, ele é o estado que mais produz, que mais gera emprego e renda, que tem cerca de 20% da população brasileira. Para que o Brasil vá bem, São Paulo tem que ir bem, quando São Paulo sofre os outros estados da federação brasileira são os primeiros atingidos, então, representar São Paulo significa representar o Brasil. São Paulo tem, como todos os outros estados, seus problemas e São Paulo carece nos últimos anos de representatividade política, se olharmos os representantes do passado e de hoje, talvez isso explique porque no ano passado o Brasil cresceu 2,5% do PIB e São Paulo cresceu apenas 0,4%. Isso significa que São Paulo puxou o Brasil para baixo, pois, se ele tivesse crescido 2,5%, o Brasil passaria de 3%. São Paulo já teve Franco Montoro, já teve Mario Covas, José Serra, Fernando Henrique, Marta Suplicy, para olhar para os dois lados ideológicos, já teve Aloísio Mercadante, Aluísio Nunes também, enfim, São Paulo precisa de alguém que tenha experiência, então eu me apresento a São Paulo como alguém que quer servir ao estado olhando para os 645 municípios, pois, a minha pauta é a pauta municipalista, uma vez eleita senadora vou abrir as portas do meu gabinete, ter uma sala, de preferência com o Marcelo Barbieri sendo o grande articulador dessa conversa com todos os prefeitos, vice-prefeitos e vereadores dos estados, porque não interessa de que partido eles sejam porque as pessoas moram nas cidades e hoje do bolo tributário a maior parte que nós pagamos fica em Brasília, mas 80% das necessidades dos serviços públicos são de responsabilidade dos prefeitos. Acho que isso é o ponto de partida, o interior precisa voltar a ser visto e ser ouvido, eu sou do interior, eu fui prefeita duas vezes, então eu sou municipalista por essência. Paralelamente a isso, São Paulo tem problemas que são universais em todos os municípios grandes, médios e pequenos que é a pauta da segurança pública, a gente tem um problema sério que o crime organizado está chegando inclusive em atividades que são lícitas nas cidades médias e pequenas “tocando o terror” como diz a juventude. Eu defendo uma coordenação nacional envolvendo as Forças Armadas, Polícia Federal, Receita Federal, todas juntas sob a coordenação do governador do estado com a Polícia Civil, Polícia Militar, Ministério Público, para que a gente possa sufocar o crime organizado naquilo que mais dói que é cortar a torneira do dinheiro, pois, só assim vamos garantir segurança. E dentro dessa pauta não tem como não falar de algo que é muito caro para mim que é nós buscarmos recursos necessários para que a gente possa diminuir a violência contra a mulher no estado de São Paulo. Enquanto no Brasil a violência contra a mulher caiu 2,5%, em São Paulo teve um crescimento de feminicídio e violência contra a mulher de 10%. Quando a gente fala de região metropolitana nós temos que pensar na mobilidade, no bilhete integrado, tarifa zero, e o governo federal, a união tem recurso para isso, quando a gente fala do interior como em Araraquara, quando a gente fala aqui da região central, nós estamos falando de uma região que tem uma diversidade econômica muito forte e é isso que a gente quer para todas as regiões do estado. Então, aqui ao lado de um ex-prefeito que foi duas vezes prefeito e conseguiu na época quase zerar o déficit habitacional com 10 mil casas, proporcionalmente, foi o município que mais recebeu casas do programa Minha Casa Minha Vida graças à competência dele. Então, a gente sabe que cada município tem a sua realidade, mas, a região central tem que continuar fortalecendo essa diversidade econômica, pois, estamos falando de um polo educacional, tanto de Araraquara quanto São Carlos, estamos falando do setor de serviços que é muito forte, aqui a gente tem agroindústria que é muito forte, então diversidade linkada à indústria do futuro que é o carro chefe que a gente tem que investir que é a indústria tecnológica que aqui já tem, mas temos que continuar fortalecendo, é o que essa região tem que dar continuidade para gerar emprego e renda para a população brasileira”.
O Imparcial: A senhora foi a primeira mulher a presidir a Comissão de Combate à Violência Contra a Mulher no Congresso Nacional. O que você acha que pode melhorar nesse sentido e como você pode contribuir no Senado?
Simone: “Eu vou colocar recursos na mão do próximo governador, seja ele quem for, entre outras coisas, vou dizer esse recurso está carimbado para a segurança pública para manter as delegacias especializadas das mulheres no interior e na capital 24h abertas e 7 dias na semana. Porque o momento em que a mulher é violentada ou morta é sempre nos finais de semana e depois das 7h da noite, quando a gente encontra as portas das delegacias fechadas. Por isso, recursos não vão faltar para que a gente crie as medidas protetivas para qualquer mulher que muitas vezes chega com seus filhos, espancada e não tendo onde morar, desesperada atrás de proteção”.
O Imparcial: Quais suas propostas para Araraquara e região?
Simone: “Acho que o mais importante do que a gente achar, já fui ministra de planejamento e já fui senadora por oito anos, então é óbvio que eu sei quais são as necessidades da região, mas sempre quero dizer o seguinte, se a região consegue manter o desenvolvimento econômico ela garante uma sociedade menos desigual e garante políticas públicas, porque a cidade arrecada sem aumentar impostos que é muito importante e o prefeito devolve em forma de obras. Quando você olha Araraquara não tenho tantos problemas de déficit habitacional, mas tenho o problema da saúde pública que é regionalizada, assim como em São Carlos, pois, são dois polos regionais que atendem a mais de 40 municípios da região e isso serve para todas as regiões polos de saúde regional, nós temos que remanejar recursos dentro do Ministério da Saúde para aumentar o piso dos serviços que são pagos pelo SUS. A tabela SUS está quase que congelada, então ela não consegue cobrir todas as despesas, aqui, por exemplo, é um hospital beneficente ou mesmo no hospital público que atende pelo SUS, então, se eu não aumento a tabela acontece a ociosidade do médico, por exemplo, porque a sala pode até estar vazia, mas ele não consegue exercer porque não consegue se financiar. O problema muitas vezes não é a falta de leitos ou a área física que precisa aumentar, mas o que precisa aumentar é o valor da Tabela SUS, ainda que aqui em São Paulo tenha o SUS Paulista, mas 60% do todo são recursos do governo federal, para que a gente possa ampliar a oferta de serviços e zerar a fila especialmente na alta complexidade porque quando você tem uma dor de barriga você até se vira, mas quando você tem uma doença considerada de baixa complexidade sempre tem alguém que tem uma amigo que é médico ou que trabalha que vai olhar e dizer toma esse remédio ou faz um exame, mas, quando você fala na média e alta complexidade você está falando de tratamentos longos e caros e você precisa iniciar logo para não correr risco de morte, como no caso do câncer, da oncologia, de doenças cardiovasculares, doenças cerebrais, então essa questão da saúde em cidades de porte médio como Araraquara que é polo regional da saúde tem que ter um olhar muito especial. Por isso, seja quem for o prefeito da cidade ou o governador é obrigação do senador ou senadora da república atender aos 645 municípios do estado”.
O Imparcial: Para você, quais são os principais desafios da política no Brasil hoje?
Simone: “O maior desafio da política hoje é unificar o Brasil. O brasileiro voltar a sentar na mesa para discutir política, as pessoas voltarem a acreditar na política como a única chance de a gente realizar os sonhos das pessoas, o desafio de mostrar para a juventude e para a sociedade paulista e brasileira que é preciso separar o joio do trigo, que você tem maus e bons políticos, apesar de que os bons muitas vezes não aprecem porque eles não estão estampados nas páginas policiais, justamente por que são bons. Então quando a gente fortalece a política quem ganha é toda a sociedade, porque uma política forte com instituições fortes é uma política que olha para frente e que analisa os problemas, mostra o diagnóstico e depois executa, ou seja, ela atende, ela serve. Eu falo que Araraquara é um exemplo de bons gestores, aonde tivemos quase duas décadas de uma alternância de poder entre Edinho e Barbieri que mostram ser bons, pois, foram eleitos e reeleitos e, quando você tem uma continuidade, ainda que com pensamentos diferentes, e isso faz parte da democracia, mas nunca inimigos, quem ganha é a sociedade brasileira. Eu não consigo entender em que momento nós erramos enquanto políticos de não perceber que a insatisfação da sociedade, que é legítima, resultou em uma polarização odiosa, porque o ser diferente é bom para a democracia o que não é bom para a democracia é quando isso interdita o debate e faz com que ao invés de resolvermos o problema da população, a gente tenha pautas absolutamente equivocadas como pautas de costumes, querendo revisitar avanços que nós já tivemos com uma pauta de retrocessos, principalmente na pauta das mulheres que a gente vê muito, ao invés de estarmos discutindo a pauta da diferença dos salários entre homens e mulheres na mesma profissão e sabendo que a mulher hoje se ela for uma mulher branca em média recebe 20% a menos comprovadamente, e se for uma mulher preta ou parda pode receber até 40% menos que um homem na mesma função, a extrema direita fica discutindo, por exemplo, se a mulher deve ou não votar, alegando que a mulher não deve votar. Estamos discutindo questões que já foram superadas pela população. Acho que o grande desafio é unir o Brasil independente de suas posições ideológicas para ter civilidade, voltar a conversar, falar de política em uma mesa de domingo sem sair brigados, sem sair tapas, acho que a partir daí a gente resolve os problemas do Brasil. O maior problema do Brasil é essa brutal desigualdade social que sempre vai haver, porém, não se pode não dar a todos como ponto de partida igualdade de oportunidades, que se dá quando o filho do mais pobre pode ter a mesma oportunidade de ensino que o filho do mais rico, ele chega na universidade, ele estuda e se supera e vai poder ser um doutor, um tecnólogo e poderá ser o que quiser, pois, é só através da educação que você consegue aumentar a renda per capta da família e fazer com que o Brasil se transforme em um país de primeiro mundo, mas, são pautas que estão sendo deixadas de lado. Eu fui professora por 12 anos e entendo do assunto. Eu duvido que vai ter em um debate presidencial uma pergunta da extrema-direita sobre a educação, porque eles não acreditam nisso”.
O Imparcial: Como a senhora vê a taxação dos produtos brasileiros pelos EUA. Você acredita que pode acontecer uma operação política ou militar para interferir nas eleições brasileiras?
Simone: “Uma intervenção militar eu não acredito, uma intervenção política sim, ela pode acontecer no mundo digital com os algoritmos, mas nós estamos atentos, por isso o TSE faz bem quando fala que no período eleitoral tem regras sobre o que se pode ou não fazer nesse sentido, porque senão você cria uma desigualdade na disputa e nós vamos ficar atentos para ver se não tem interferência das grandes bigtechs para que a gente tenha a verdadeira vontade popular representada nas urnas. Quem quer que ganhe a eleição, vai ganhar em urnas que são seguras e a gente tem que respeitar os resultados das eleições seja qual for o candidato que se eleja presidente da república. Nós estamos atentos e a imprensa tem procurado cobrir esse assunto, já em relação ao ‘tarifaço’ eu só tenho que lamentar muito que as pessoas que foram eleitas pelo povo coloquem o boné de um outro país e não defendam os interesses do seu próprio estado e de seu próprio país. O estado que mais perde com o ‘tarifaço’ é o estado de São Paulo, essa região perde com o setor sucroalcooleiro, Franca na área de sapatos, Americana na área têxtil, então é muito triste ver uma família inteira indo aos Estados Unidos falando para eles tarifarem o Brasil porque é bom para eles ganharem as eleições. Então, quando a gente fala nesse assunto é importante a gente acabar com esse complexo de vira-lata do Brasil e começar a falar do nosso país, pois, o mundo inteiro está de olho no Brasil porque o nosso país tem o que o mundo não tem, graças ao clima e microclima, à nossa floresta amazônica, nós temos transição energética que o mundo está caminhando para isso, energia solar, elétrica, eólica, o biocombustível, só com o aumento de 2% na adição do etanol na gasolina significa que o agronegócio brasileiro vai ter que produzir mais um bilhão de toneladas de etanol por ano, o que é muito mais do que o que a gente exporta para os EUA, então a gente compensou o prejuízo com esse aumento da mistura que vai beneficiar a região de Araraquara. Então nós temos o que o mundo precisa e temos algo ainda mais valioso que não dá nem para dimensionar que é a questão de termos a segunda maior reserva de terras raras e minerais críticos do mundo que são utilizados em produtos de alta tecnologia e, isso é o ouro do futuro. Porém, a gente não tem a tecnologia para transformar isso, então nós temos que formar parcerias, mas, sob as nossas regras, não levar em natura que não tem valor agregado, mas, elaborar os produtos aqui, mesmo que venham investidores estrangeiros abrir fábricas aqui e gerem empregos aqui de alta qualidade. E São Paulo e os estados do Sudeste são os mais beneficiados por essa tecnologia, pois, os outros estados ainda não têm formação tecnológica de mão-de-obra como aqui em São Paulo, por isso, os investidores preferem vir para o estado de São Paulo por que estão perto de institutos que preparam os jovens para essas funções”.
O Imparcial: Quando uma mulher perde dinheiro em apostas, o problema não termina nela: compromete o orçamento de toda a família. O governo está considerando o impacto das BETs sobre a renda familiar e pretende combater de forma mais incisiva?
Simone: “Eu sou radicalmente contra qualquer tipo de jogo de azar, defendi no Senado junto de outros companheiros a proibição da vinda de casas de jogos para o Brasil que fomentam a prostituição, lamentavelmente, outros governos legalizaram as BETs no Brasil e da pior forma possível, agora a gente tem que colocar o gênio dentro da lâmpada, mas isso é muito difícil, se tiver um projeto para acabar com as BETs no Brasil eu voto favorável, acho difícil acontecer isso nesse momento, acho que devemos começar dando pequenos passos como fizemos com o cigarro, lembrando da coragem do senador José Serra que enfrentou um lobby violento a favor dos genéricos e proibindo a propaganda de cigarros que fez despencar o consumo de cigarros no Brasil. Se a gente não proibir a propaganda de BETs no Brasil, salvo em algumas exceções, nós já estamos entrando e vai ser muito mais difícil ainda combater essa epidemia entre as mulheres brasileiras mães que querem complementar a renda, por exemplo. Isso é uma epidemia tão nociva que está tirando o dinheiro da economia, no setor de serviços, do comércio, está tirando comida da mesa porque as pessoas estão indo ao mercado com menos dinheiro porque as despesas estão aumentando por conta do jogo que tirou R$ 220 bilhões da economia do país no último ano. Quero dizer que as pessoas não tenham vergonha e procurem ajuda no SUS digital que tem até 10 sessões de terapia para esses casos. Entendo que esse é um dos maiores problemas que temos que enfrentar a partir de janeiro de 2027”, finalizou a candidata.

Mais atenção aos municípios
O ex-prefeito de Araraquara, Marcelo Barbieri (PDT), também falou à reportagem sobre a sua escolha como segundo suplente da candidata ao Senado. “Eu fico muito honrado de estar com essa pessoa que é a Simone que tem essa altivez, esse nível político elevado e em quem a gente pode confiar, na sua seriedade e em seu compromisso. Como ministra recentemente do Planejamento e Orçamento do Brasil, eu vi o seu esforço para dar austeridade ao gasto público e eu me identifico com isso, com a preocupação que ela tem de a gente saber fazer um gasto controlado e que dê retorno à população. Então, primeiro eu me alinho à postura política que ela tem, como prefeita que ela foi ao mesmo tem que eu, convivi com o pai dela que foi um grande parlamentar, um grande ministro e um professor para nós. A minha posição é de que estamos na chapa da Simone para representar o interior e as 645 cidades do estado de São Paulo, para isso, nós precisamos dar atenção aos prefeitos e às prefeitas. Hoje estivemos com a prefeita de Américo Brasiliense, Terezinha Viveiros, que manifestou as suas dificuldades como gestora de fazer frente à falta de recursos com a situação difícil que o município vive, como aqui também sabemos da situação que o Lapena vive, como sabemos da situação que o Neto, prefeito de São Carlos vive, então, a gente conhece os prefeitos aqui do interior e vamos estar com a proposta de trabalho no Senado com a sala municipalista que vai atender todos os prefeitos, vereadores e vereadoras, porque isso é muito importante para eles que terão um local onde serão atendidos sempre que forem à Brasília. Como fui presidente da Associação Paulista de Municípios e da Associação dos Prefeitos da Região Central durante os 8 anos que fui prefeito de Araraquara, eu me identifico com isso e acho que temos que ter esse compromisso com a municipalidade. Dentro disso, todo mundo sabe que sou de Araraquara, minha família é de Araraquara, por isso sempre vou trabalhar em benefício da nossa cidade e pela melhoria da qualidade de vida das pessoas do estado de São Paulo, por isso, estou do lado dela porque temos os mesmos propósitos e não tem hoje no cenário político outra pessoa com o gabarito político que eu tenho a honra estar ao lado dela que é a Simone Tebet. Estou aqui porque eu defendo a postura dela e quero estar no Senado para contribuir com uma eventual vitória da Simone que vai fazer um mandato muito honrado e vai lembrar os grandes senadores que São Paulo já teve”, declarou Marcelo.
Foto: O Imparcial