O envelhecimento da população está mudando o perfil de quem movimenta o comércio. No Estado de São Paulo, pessoas com 60 anos ou mais já correspondiam a 17,2% da população em 2022, segundo dados da Fundação Seade com base no Censo Demográfico. Em 1991, eram apenas 7,7%. Por ser o Estado mais populoso do País, São Paulo concentra ainda 23,8% dos idosos brasileiros.
Para o Sincomercio Araraquara, a transformação demográfica ajuda a explicar uma percepção que começa a aparecer entre comerciantes: a presença cada vez mais relevante do consumidor maduro na sustentação das vendas e na dinâmica dos estabelecimentos tradicionais, mas isso não significa que ele esteja desconectado.
A tendência fica ainda mais evidente quando se observa o potencial de consumo. Dados apresentados recentemente pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), a partir do estudo Tsunami Prateado, da Data8 em parceria técnica com o Opinion Box, mostram que o Brasil já tem 62 milhões de pessoas com mais de 50 anos, grupo que movimenta cerca de R$ 1,8 trilhão em consumo.
Em 2018, eram 51 milhões de brasileiros nessa faixa etária. Para 2044, a estimativa é que o público 50+ represente 40% da população brasileira, movimentando R$3,8 trilhões, equivalentes a 35% do consumo privado do país. Atualmente, o gasto per capita dos brasileiros maduros já é 37,5% superior ao registrado entre aqueles com menos de 50 anos.
Comércio tradicional encontra um consumidor de peso
Para Maria Clara Kirsh, economista do Sincomercio Araraquara, o avanço dessa parcela da população deve ser observado pelo varejo não apenas como uma transformação demográfica, mas também como uma mudança estrutural no mercado consumidor.
“Quando a população envelhece, muda também quem está na frente do balcão e quem toma as decisões de compra. É um público numeroso, com participação econômica relevante e que tende a ganhar ainda mais espaço nos próximos anos. Para o comércio tradicional, que muitas vezes construiu relações de confiança durante décadas com seus clientes, compreender esse consumidor passa a ser uma questão estratégica, já que ele também está presente no universo digital.”
Os números paulistas mostram a velocidade dessa transformação. Entre 2000 e 2022, enquanto a população total do Estado cresceu 20%, o contingente de pessoas com 65 anos ou mais avançou 133%, passando de aproximadamente 3,2 milhões em 2010 para 5,3 milhões em 2022.
Esse crescimento pode ter reflexos importantes principalmente para estabelecimentos de bairro e negócios que mantém relacionamento próximo com seus consumidores. Atendimento personalizado, confiança, facilidade para solucionar problemas e conhecimento das preferências do cliente podem ganhar relevância em um cenário de envelhecimento populacional.
60+ não significa consumidor desconectado
O estudo sobre a economia prateada mostra justamente uma transformação no comportamento digital do público maduro. Entre os brasileiros com mais de 50 anos, o acesso diário à internet passou de 70% em 2021 para 87% em 2026. No período analisado, também houve crescimento no uso de aplicativos bancários, compras de passagens pelo celular e aplicativos de delivery.
Nas compras online, roupas e acessórios aparecem entre os produtos mais adquiridos por esse público, com 52%, seguidos por medicamentos (46%), eletrodomésticos e utensílios domésticos (42%), passagens e pacotes de turismo (37%) e alimentos e bebidas (36%).
Para Maria Clara, isso indica que a oportunidade para o varejo não está em escolher entre o atendimento tradicional e o digital, mas em entender como esses canais podem se complementar.
“Existe uma tendência de associarmos o consumidor mais velho exclusivamente ao comércio físico, mas os números mostram que ele também incorporou o digital à rotina. A vantagem do comércio tradicional pode estar justamente em combinar aquilo que sempre fez bem: proximidade, confiança e atendimento com as facilidades que esse consumidor já espera encontrar nos canais digitais.”
Consumidor quer autonomia, não rótulos
Outro desafio para o varejo está na maneira como empresas se comunicam e desenvolvem produtos para essa população. Segundo o levantamento, três em cada dez brasileiros acima dos 50 anos sentem falta de produtos adequados às suas necessidades e quatro em cada dez afirmam não se ver representados na publicidade.
Mais do que criar produtos identificados simplesmente como “para idosos”, o estudo aponta oportunidades em aspectos práticos da experiência de consumo, como facilidade de leitura, abertura de embalagens, preparo, utilização e compra. A autonomia aparece como questão central: para 66% dos entrevistados, o maior medo é depender de outra pessoa.
Na avaliação do Sincomercio Araraquara, a tendência exige atenção dos empresários porque não se trata de um fenômeno passageiro.
“Não estamos falando apenas de adaptar o comércio para o consumidor de hoje. Estamos olhando para quem será uma parcela cada vez maior do mercado nos próximos anos. O empresário que conhecer melhor esse público, entender seus hábitos e preservar sua autonomia terá melhores condições de acompanhar essa transformação do consumo.”, conclui Maria Clara.




























