Dia do Servidor Público: entrevista expõe desafios enfrentados pelo funcionalismo municipal

“O servidor é tratado como adversário, não como parceiro”, afirma José Guilherme

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Isabela Mattos/Colaboração

Em 28 de outubro é comemorado o Dia do Servidor Público. O Jornal Imparcial conversou com José Guilherme Cagnin, que avaliou os desafios do funcionalismo municipal de Araraquara. Servidor público desde 2009, ele acompanha de perto as dificuldades enfrentadas pela categoria e aponta a sobrecarga de trabalho, o déficit de profissionais e a falta de diálogo com o governo municipal como um dos principais problemas da administração pública.

José Guilherme é formado em Ciências Sociais pela UNESP de Araraquara e mestre em Planejamento e Análise de Políticas Públicas pela UNESP de Franca, além de ser especialista em Gestão de Cidades. Ao longo de sua trajetória na Prefeitura, ocupou funções ligadas à formulação e à gestão de políticas sociais, entre elas a Secretaria-Executiva e a presidência do Conselho Municipal sobre Drogas (COMAD).

Em 2025, diante das insatisfações dos trabalhadores municipais, participou da fundação do Coletivo SOL (Servidores Organizados na Luta), que defende a valorização do funcionalismo e melhores condições de trabalho.

É a partir dessa combinação de experiência técnica, vivência de 15 anos de Prefeitura e militância em defesa dos trabalhadores que ele analisa, a seguir, o atual cenário do funcionalismo e da gestão municipal de Araraquara.

Leia a entrevista na íntegra:

Imparcial: Na sua avaliação, neste dia do Servidor Público, quais os principais desafios de quem trabalha para atender a população?

José Guilherme: “O maior desafio hoje é servir à população com o mínimo de condições e o máximo de pressão. São mais de 15 anos de serviço público, e vejo que a categoria nunca esteve tão sobrecarregada e desmobilizada. De um lado, temos um déficit de pessoal gritante. O governo municipal devendo para empresas terceirizadas, o que fez paralisar 100% das creches por quase uma semana. Também, a ausência de vigilância nas escolas, por quebra de contrato, que tem causado enormes prejuízos sociais e financeiros. Na saúde, anos atrás, por exemplo, a falta de condutores de ambulância gerava mais de 1.700 horas mensais trabalhadas em desacordo com a lei. Na Educação, há relatos de salas superlotadas e professores sobrecarregados diante da escassez de profissionais. Do outro lado, a gestão municipal responde com suspensão de horas extras por ‘crise financeira’, o que na prática significa que o servidor que já está sobrecarregado vê sua renda minguar ainda mais. E, mais, quando libera fazer horas extras, o governo deixa atrasar o pagamento de seus funcionários. O desafio é esse, manter o serviço público de pé, com dignidade, enquanto a administração trata o funcionalismo como um problema contábil, como uma empresa privada e não como a base do atendimento à população.”

Imparcial: Existe uma distância entre a importância do trabalho realizado pelos servidores e o reconhecimento que eles recebem do poder público. Como isso se manifesta no cotidiano?

José Guilherme: “A distância é abissal. O reconhecimento não vem em forma de valorização, mas de imposição e desrespeito. No cotidiano, isso se manifesta na forma como a Prefeitura conduz a negociação da data-base, por exemplo, onde a proposta apresentada para 2026 foi de 4,39% de reajuste (mera reposição inflacionária), com a manutenção do ticket alimentação em R$ 640,00 – um dos piores da região, como denunciei na Tribuna da Câmara. Além disso, a postura do prefeito em reuniões de negociação, exibindo vídeos de passeatas dos servidores, e de seus familiares, como forma de ‘intimidação e assédio’, mostra que o diálogo não é um valor para esta gestão. O servidor é tratado como adversário, não como parceiro.”

Imparcial: Como estão as condições de trabalho nas diferentes áreas da Prefeitura? Há problemas relacionados à falta de profissionais, à sobrecarga ou à estrutura disponível?

José Guilherme: “As condições são críticas e heterogêneas, mas o denominador comum é a precarização, isto é, o desmonte de políticas públicas. Na Saúde, por exemplo, que considero hoje um dos setores mais crítico, além do déficit de condutores, a categoria da enfermagem enfrenta unidades sucateadas, falta de profissionais e sobrecarga, o que tem impacto direto na saúde mental dos trabalhadores. Há relatos de funcionários acumulando 100 a 200 horas extras por mês, o que é insustentável e um claro indício da falta de pessoal. Também, faltam a categoria de agentes comunitários de saúde, e possuem pessoas aguardando serem chamadas nesse e vários outros concursos. Na Educação, a falta de servidores é um problema crônico. Estamos vendo escolas e centros de educação necessitando de reforço no quadro, com acúmulo de funções e sobrecarga para quem está na ponta. Por fim, na Administração Geral, a crise financeira alegada pela gestão levou à suspensão e atraso dos pagamentos de horas extras, afetando serviços essenciais e a renda dos servidores. É um caos administrativo que penaliza quem trabalha.”

Imparcial: Recentemente, o prefeito de Araraquara, Dr. Lapena (PL), publicou um vídeo em suas redes sociais ao lado dos vereadores Enfermeiro Delmiran (PL) e Dr. Lelo (Republicanos), que também são servidores públicos. No vídeo, o prefeito faz uma cobrança direta aos servidores públicos de Araraquara. “Se o munícipio não aprovar a Planta Genérica de Valores, nós não vamos sair do Artigo 167A da Constituição. Nós não teremos possibilidade de dar um reajuste real, que seja de 1%. Não vai ter reajuste no ticket. E quando o dissídio chegar, vocês vão esperar alguma notícia boa, que se não aprovar a PGV, não vai acontecer”. Em seguida, o prefeito faz um apelo aos servidores para que cobrem os vereadores para que aprovem o projeto. Como servidor público, como você recebeu esse pedido?

José Guilherme: “Recebi com indignação e entendi como uma manobra diversionista. O prefeito, em vez de dialogar com a categoria sobre nossas pautas, tenta nos usar como massa de manobra para pressionar o Legislativo a aprovar um projeto que, na prática, aumenta o IPTU da população. Ou seja, ele condiciona um ‘reajuste real que seja de 1%’ e o ticket à aprovação da PGV, o que é uma chantagem. Isso é transferir a responsabilidade pela sua própria incapacidade de gestão para os servidores e para a Câmara. A fala dele deixa claro: ‘Cobrem os vereadores para que eles aprovem esse projeto’. Não vamos aceitar ser escudo de uma medida impopular que não resolve o problema estrutural do nosso salário. Os servidores, organizados pelo Coletivo SOL – Servidores Organizados na Luta – é de autonomia e crítica: não aceitamos ser instrumentalizados.”

Imparcial: Na prática, como a falta de diálogo com o governo municipal afeta os trabalhadores e a qualidade dos serviços prestados à população? Você acredita que o maior problema hoje é a falta de recursos para atender às reivindicações dos servidores ou a falta de disposição da administração para sentar à mesa e negociar?

José Guilherme: “O maior problema é a falta de disposição política deste governo para negociar com respeito com seus trabalhadores. Os recursos são limitados, é verdade, isso é gerir máquina pública, saber gerir recursos; mas a forma como a gestão os administra e prioriza revela sua verdadeira face. A Prefeitura alega crise, mas insiste em manter um ticket alimentação vergonhoso e em não apresentar contrapropostas reais. A reunião em que o prefeito exibiu vídeos da nossa passeata, nos expondo e expondo nossos familiares, é a prova cabal de que não há disposição para o diálogo, mas para a intimidação. Como eu disse na Câmara, o Lapena, na data-base, impôs o que ele ia pagar e já enviou pra Câmara, desrespeitando a Assembleia dos Servidores. Então, o problema não é só de caixa, é de método, de autoritarismo e de falta de respeito com quem faz a cidade funcionar.”

Imparcial: Para finalizar, se você tivesse a oportunidade de apresentar, pessoalmente, as principais insatisfações dos servidores municipais ao prefeito de Araraquara, quais seriam elas?

José Guilherme: “Eu apresentaria os seguintes pontos inegociáveis:

1) Valorização salarial real: reposição da inflação mais ganho real, com um salário base digno e um ticket alimentação de R$ 1.150,00, como reivindicado pelo SISMAR. Chega de complementações que maquiam o piso.

2) ⁠Fim do assédio institucional: respeito às assembleias, às paralisações, greves e decisões da categoria. Negociação séria, sem vídeos de intimidação e sem chantagens.

3) ⁠Concurso público já: Para resolver o déficit de pessoal na Saúde, Educação e Administração. A sobrecarga não se combate com horas extras, mas com quadros completos e carreiras atrativas.

4) ⁠Respeito à Cultura, ao Esporte, à Segurança Pública e demais pastas que sofrem desmonte.

5) ⁠Respeito ao Coletivo SOL, à liberdade de expressão e à liberdade sindical: garantia de que servidores organizados em coletivos independentes possam exercer sua crítica e sua luta sem retaliação.

O servidor público de Araraquara não quer favor, quer respeito, dignidade e condições para trabalhar”, finalizou.

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