Araraquara, minha cidade, meu amor!

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Vereadora Fabi Virgílio

Tatuei em meu corpo seu mapa, como forma de determinar território, pertença, presença, enraizamento, identidade, meu lugar. Pintei em vermelho uma estrela na região da Vila Xavier, território de meu nascimento, território onde minha bisa me benzia enquanto eu crescia e ela acompanhava o movimento pela Avenida Antônio Lourenço Corrêa.

Cresci na Vila Gaspar, entre a avenida estrada de ferro e a linha do trem. Ahh… o trem! Esse nosso grandão que desbrava as entranhas das cidades e leva consigo progresso, saudades, amores, rancores, dores… A cada apito, gritando, as crianças corriam para a esquina, jogando pedra no trem, como quem dizia: tempo, passa devagar, a gente ainda precisa aprumar.

Ou passando por baixo dele para atravessar entre o Jardim Brasília e a Vila, desafiando a morte numa tentativa de chegar mais cedo ao destino ou demonstrando aquela coragem e ingenuidade que só cabem ali, naquele momento.

Uma cidade não é só uma cidade. Ela é nosso mundo todinho, nosso canto profundo, nosso acalanto. É nosso tempero, nosso esmero, nosso cheiro de infância. É o lugar onde a gente aprende a andar, a cair, a levantar. Onde conhece as primeiras ruas, os primeiros medos, os primeiros amores. Onde a gente aprende que algumas esquinas guardam mais histórias do que qualquer livro.

Araraquara, para mim, é feita dessas coisas que não cabem em fotografia.

É a voz da minha bisa. É o barulho do trem. É a Vila Xavier. É a Vila Gaspar. É o sol estourando no concreto e o cheiro da terra depois da chuva. É a Praça das Bandeiras em mais um entardecer. São as feiras dos coletivos, resistindo e movimentando a ocupação das praças. É o comércio teimando em persistir na era da internet. É o campinho de chão batido, a escola, o teatro, a música que escapa de alguma janela e chega à rua. São nossos artistas.

É também aquilo que foi ficando pelo caminho.

As casas que mudaram. As salas de cinema de rua que desaconteceram. As árvores que já não estão. As pessoas que partiram. As brincadeiras que desapareceram. Os lugares que a gente procura com os olhos e encontra apenas na memória.

Porque cidade também é ausência.

E talvez seja por isso que a gente lute tanto por ela. Porque amar uma cidade não é apenas dizer que ela é bonita. É querer que ela continue sendo possível para quem vem depois da gente.

É querer que nossas crianças possam correr, brincar, ocupar as praças, conhecer os teatros, ouvir música, fazer arte, andar de bicicleta, atravessar a cidade com segurança e descobrir, como eu descobri, que existe um mundo inteiro dentro do lugar onde a gente nasceu.

É entender que cultura não é enfeite.

Cultura é memória. É identidade. É pertencimento. É aquilo que nos conta de onde viemos para que possamos escolher para onde vamos.

Talvez por isso eu goste tanto de pensar Araraquara através das pessoas que a imaginaram antes de nós.

Wallace Leal Valentin Rodrigues também olhou para esta cidade e tentou enxergar além do seu tempo. Escreveu sobre Araraquara, sobre seu futuro, sobre aquilo que ela poderia ser. E é bonito perceber que, décadas depois, ainda estamos aqui, tentando imaginar a cidade que queremos deixar.

Porque uma cidade nunca está pronta.

Ela está sempre sendo construída pelas mãos de quem planta uma árvore, pinta um muro, sobe num palco, escreve um poema, cuida de uma praça, preserva uma fotografia, abre a porta de uma biblioteca, toca uma música, conta uma história.

Está sendo construída por quem insiste.

Por quem fica.

Por quem ama.

E eu amo Araraquara com esse amor meio desajeitado, profundamente cotidiano, que conhece seus defeitos e, ainda assim, escolhe permanecer.

Meu amor por essa cidade nasceu de uma bisa benzendo uma criança, do apito de um trem, das ruas da Vila na infância.

E talvez seja isso que significa pertencer a um lugar: carregar um pedaço dele dentro da gente.

Eu carrego Araraquara no corpo. No mapa tatuado. Na estrela vermelha sobre a Vila Xavier. Nas histórias que minha memória insiste em guardar.

E, principalmente, na certeza de que uma cidade não é só uma cidade.

Ela é nosso mundo todinho. Nosso lugar de viver. Nosso lugar de pertencer.

Araraquara, minha cidade, meu amor.

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