Araraquara, berço de talentos: cultura não é gasto, é investimento

Entre desafios financeiros e projetos para o futuro, a missão é fazer com que a arte continue chegando às pessoas

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Isabela Mattos/Colaboração

O Dia Nacional da Cultura, celebrado anualmente em 5 de novembro, nos faz um convite à reflexão. Em Araraquara, cidade reconhecida por sua tradição artística e por revelar nomes que ganharam projeção nacional e internacional, como, por exemplo, o escritor Ignácio de Loyola Brandão, que completou 90 anos em 2026 e a cantora Liniker, de 31 anos, que foi premiada no Grammy Latino em 2022 e 2025. Além de outras premiações importantes, em novembro de 2023, Liniker foi empossada na cadeira nº 51 na Academia Brasileira de Cultura (ABC), espaço que anteriormente foi ocupado pela cantora Elza Soares, tornando-se, assim, a primeira mulher trans a integrar a instituição.

À frente da Secretaria de Cultura pela segunda vez, Euzânia Andrade, que é Artista Visual e Doutora em Educação, conhece os desafios da gestão cultural. Entre suas principais preocupações, estão a sustentabilidade do trabalho dos artistas, a recuperação de espaços importantes para a história da cidade, a ampliação de formação artística e a garantia de recursos para a continuidade das ações culturais na Morada do Sol.

Infelizmente, o que foi apresentado na Lei Orçamentária Anual (LOA) em 24 de outubro na Câmara Municipal, apresenta uma redução de aproximadamente 65% nos recursos destinados à Fundação de Arte e Cultura de Araraquara (Fundart). É por isso que a secretária faz um apelo aos empresários que têm condições de contribuir: “Juntem-se a nós e ajudem a fortalecer a cultura da nossa cidade”.

Nesta entrevista, Euzânia fala sobre as dificuldades enfrentadas pela pasta, sobre os projetos que deseja concretizar, sobre a importância das políticas públicas de cultura e sobre o futuro de uma cidade que tem na arte uma de suas marcas.

Leia a entrevista na íntegra:

Imparcial: Existe uma sensação de que a cultura ainda precisa justificar constantemente sua importância dentro da administração pública?

Euzânia Andrade: “Sim, e penso que essa é uma questão que precisamos superar. A cultura ainda é, muitas vezes, compreendida como algo complementar. Mas a cultura não é algo que acontece apenas nos teatros, nos museus ou nos grandes eventos. Ela está na maneira como as pessoas vivem, suas histórias, memórias e como se relacionam. Está naquilo que nos apresentam em seus comportamentos e como constroem suas identidades, preservam suas memórias e compreendem o mundo.

Em meu olhar como artista, posso observar o quanto a arte transforma nossa maneira de olhar para as coisas, amplia nossa capacidade de pensar e nos torna mais sensíveis ao outro. Como gestora, já passei por três governos diferentes e entendo que temos a responsabilidade de transformar essa compreensão em políticas públicas.

Tenho trabalhado para que a cultura dialogue diretamente com a educação, com a saúde, com Assistência social, com a cidadania e com o desenvolvimento econômico na busca de uma melhor qualidade de vida. Gostaria que as pessoas entendessem que não temos gastos com a cultura. A cultura deve ser vista como um direito e como um investimento na vida das pessoas.”

Imparcial: Quais são hoje as principais dificuldades enfrentadas por quem vive de cultura na cidade?

Euzânia Andrade: “Acho que uma das maiores dificuldades é a sustentabilidade do trabalho artístico. Araraquara é um celeiro de artistas. Temos muitos artistas, produtores, músicos, atores, bailarinos, artesãos e trabalhadores da cultura com uma produção muito significativa, mas que ainda encontram dificuldades para viver de sua própria atividade. Mas vejo também que essa é uma realidade no país. Temos tido uma preocupação constante em ampliar as oportunidades, criar mecanismos de financiamento, oferecer espaços adequados para criação e apresentação e, principalmente, garantir continuidade às políticas culturais.

Além dos editais municipais, como o Território da Arte, a Semana Luís Antônio, o Araraquara Rock, entre outros, temos também parcerias com o Governo Federal, como a Lei Aldir Blanc. São recursos importantes que chegam ao município, mas é preciso compreender que, junto com eles, existe um processo extremamente complexo, que envolve elaboração de editais, regulamentação, análise de projetos, formação de comissões, acompanhamento, prestação de contas e toda a execução administrativa. E todo esse trabalho é realizado pela própria Secretaria de Cultura, que precisa assumir essas responsabilidades com sua equipe e estrutura.

É importante destacar que captar recursos é apenas uma parte do processo. Fazer com que eles cheguem efetivamente aos artistas e produtores culturais, garantindo transparência, responsabilidade e o cumprimento de todas as exigências legais, exige muito trabalho técnico e administrativo.”

Imparcial: Como Secretária da Cultura de Araraquara, quais projetos gostaria de tirar do papel, mas ainda enfrenta dificuldades para viabilizar?

Euzânia Andrade: “Temos muitos projetos e sonhos, mas também temos responsabilidades muito concretas com aquilo que já existe. Araraquara possui um patrimônio cultural muito importante, espaços que guardam nossa memória e uma história que precisa ser preservada.

Hoje, vejo que uma das nossas questões mais importantes é a preservação do patrimônio cultural de Araraquara, que é riquíssimo e representa a história, a memória e a identidade da nossa cidade. Temos espaços de grande relevância, mas muitos deles passaram anos sem receber a manutenção necessária e sem as adequações que o tempo e as novas tecnologias exigem. Preservar esse patrimônio não significa apenas cuidar dos prédios, mas garantir que eles continuem vivos, acessíveis e cumprindo sua função social e cultural. Precisamos recuperar esses espaços, modernizá-los e prepará-los para as próximas gerações. Afinal, uma cidade que não cuida de sua memória corre o risco de perder parte de sua própria história.

Gostaria muito de avançar na implantação do Centro Cultural no antigo Matadouro, um projeto que nasceu de uma mobilização da sociedade e que representa uma possibilidade extraordinária de ocupação cultural, formação artística e convivência. Também precisamos avançar na recuperação dos galpões ferroviários, que ficam ao lado do Museu Ferroviário. Com certeza tenho um grande sonho de poder concluir a reforma da Casa da Cultura, que para mim é um ícone da nossa cultura. Temos também que terminar o Teatro Wallace e a Casa Hip Hop.

Outro desejo que carrego é ampliar ainda mais as Oficinas Culturais. Acredito profundamente na força desse programa, que transforma vidas por meio da arte, desperta talentos, abre caminhos e cria oportunidades. São milhares de pessoas que encontram nas oficinas um espaço de aprendizado, expressão, convivência e descoberta. É a cultura chegando à vida das pessoas, fazendo parte do seu cotidiano e mostrando que a arte deve ser um direito de todos.”

Imparcial: Segundo manifestação de um vereador durante a sessão ordinária do dia 03 de novembro na Câmara Municipal, a proposta da Lei Orçamentária Anual (LOA) prevê uma redução de quase 65% nos recursos destinados à Fundart. Como essa redução impactaria o funcionamento da instituição?

Euzânia Andrade: “Entendo perfeitamente que é uma redução muito expressiva, que certamente exigirá uma reflexão sobre o funcionamento e a capacidade de atuação da Fundart. A Fundart tem um papel importante na estrutura cultural do município. Não estamos falando apenas de números ou de uma estrutura administrativa. Estamos falando de ações, projetos, atividades e oportunidades que chegam aos artistas e à população.

É justamente por isso que precisamos discutir prioridades e encontrar caminhos. É o que estamos fazendo: preparando projetos e buscando apoios para garantir a continuidade do nosso calendário cultural. Além disso, é por meio da Fundart que são realizados os pagamentos dos educadores das Oficinas Culturais. Temos, felizmente, a garantia do prefeito Dr. Lapena de que o Programa terá continuidade, assim como o nosso calendário de eventos. Também temos mantido diálogo com o secretário da Fazenda, que tem se comprometido a buscar a suplementação dos recursos no orçamento previsto na LOA.”

Imparcial: Muitas vezes, quando se fala em cultura, muitos pensam apenas em apresentações artísticas e eventos. Qual é o impacto dos projetos culturais na formação das pessoas e na transformação social?

Euzânia Andrade: “Essa talvez seja uma das questões mais importantes. Um espetáculo termina, uma exposição se encerra, um evento acontece em um determinado dia, mas aquilo que a cultura provoca nas pessoas permanece.

Quando uma criança entra pela primeira vez em uma oficina de desenho, quando alguém descobre a música, o teatro, a dança ou a gravura, não estamos apenas ensinando uma técnica. Estamos abrindo possibilidades de expressão, de conhecimento, de convivência e de descoberta.

Nas Oficinas Culturais, por exemplo, temos milhares de pessoas participando de diferentes linguagens artísticas. São crianças, jovens, adultos e idosos que encontram ali um espaço de aprendizado, troca e pertencimento.

Além das Oficinas Culturais, temos uma parceria muito importante com o Governo do Estado, por meio do Projeto Guri, que oferece formação musical gratuita para crianças, adolescentes e jovens, proporcionando o contato com a música e o aprendizado de diversos instrumentos, como violino, viola, violoncelo, contrabaixo, violão, guitarra, teclado, percussão e instrumentos de sopro, entre outros.

Como artista, acredito profundamente nisso. A arte transforma primeiro o nosso olhar e, a partir dele, transforma também a maneira como nos relacionamos com o mundo.

Temos exemplos importantes de pessoas que passaram pelas Oficinas Culturais, se destacaram e hoje conquistam reconhecimento nacional. Isso é motivo de orgulho, mas acredito que a maior conquista está naquelas pessoas que estão aqui, no dia a dia, que aprenderam a olhar, sentir e valorizar a arte. São pessoas que ampliam sua consciência, desenvolvem a sensibilidade e se tornam mais criativas.”

Imparcial: Se pudesse deixar uma mensagem aos vereadores que terão a responsabilidade de votar o orçamento de 2027, o que pediria a eles em defesa da cultura de Araraquara?

Euzânia Andrade: “Eu pediria que olhassem para a cultura para além das diferenças políticas e partidárias. A cultura pertence à cidade, pertence às pessoas. As Oficinas Culturais, os museus, as bibliotecas, os eventos tradicionais, os espaços de formação e os projetos artísticos não são patrimônio de um governo. São patrimônio da população.

Temos projetos construídos ao longo de muitos anos, alguns com três ou quatro décadas de história. São atividades que atravessaram diferentes administrações e que continuam porque têm significado para a comunidade. Sei das dificuldades financeiras do município, mas gostaria que os vereadores compreendessem que, se cada um pudesse contribuir com indicações de possíveis patrocinadores ou destinação de emendas parlamentares, poderíamos somar esforços e criar novas possibilidades para que a cultura continue acontecendo e chegando às pessoas.

Não estou pedindo que deixemos de considerar a realidade financeira do município. Estou pedindo que a cultura seja considerada uma prioridade possível e necessária dentro dessa realidade. Por isso, faço um apelo aos empresários que têm condições de contribuir: que se juntem a nós e ajudem a fortalecer a cultura da nossa cidade. A cultura precisa de orçamento, planejamento e continuidade. E essa é uma responsabilidade de todos nós.”

Imparcial: Na sua opinião, qual seria o cenário ideal para a cultura de Araraquara nos próximos anos?

Euzânia Andrade: “Imagino uma Araraquara que reconheça plenamente sua vocação cultural e que tenha condições de transformar esse potencial em uma política pública permanente. Uma cidade com seus equipamentos culturais bem cuidados, museus preservados, bibliotecas vivas, teatros funcionando, espaços de criação e convivência. Uma cidade que amplie suas Oficinas Culturais, valorize seus artistas, fortaleça seus grupos e manifestações populares e ofereça oportunidades para que crianças e jovens tenham contato com diferentes linguagens artísticas.

Gostaria também de ver a cultura cada vez mais presente nos bairros, nas escolas, nas comunidades e nos espaços públicos. Não podemos pensar a cultura apenas a partir dos equipamentos que temos no centro da cidade. Ela precisa estar onde as pessoas estão. Não precisamos apenas de uma cidade que realize grandes eventos, mas de uma cidade que construa uma identidade cultural própria, que deixe sua marca e movimente não apenas a cultura, mas também o turismo, a economia e a vida das pessoas.”

Imparcial: Para encerrar, Araraquara tem uma história cultural muito rica e é berço de grandes nomes, como Ignácio de Loyola Brandão e Liniker, que levaram o nome da cidade para o Brasil e o mundo. O que precisamos fazer, coletivamente, para que esse potencial continue florescendo?

Euzânia Andrade: “Precisamos, antes de tudo, reconhecer e valorizar aquilo que temos. Às vezes, uma cidade não percebe a dimensão de sua própria riqueza cultural porque está acostumada a conviver com ela. Araraquara tem uma história muito bonita nas artes, na literatura, na música, nas artes visuais, no teatro e nas manifestações populares.

Temos artistas que construíram trajetórias importantes, temos novos talentos surgindo e temos uma população com origens, histórias e experiências culturais muito diversas. Mas ninguém floresce sozinho. É preciso criar condições. Precisamos oferecer formação, oportunidades, espaços, circulação, incentivo e reconhecimento. Precisamos aproximar a educação da cultura, envolver nossas crianças e jovens e fazer com que eles conheçam os artistas e a história da cidade.

Penso que temos também uma responsabilidade muito grande com a memória. Uma cidade que não preserva sua história corre o risco de não reconhecer aquilo que a torna única.

Como artista, acredito que a criatividade nasce da liberdade, da experimentação e do encontro com o outro. Como gestora, sei da nossa responsabilidade de construir políticas públicas que permitam que essa criatividade encontre espaço para existir. Sei que Araraquara é reconhecida pelos grandes nomes que já produziu, mas gostaria que também fosse reconhecida pelo cuidado com sua vida cultural, pela valorização de suas manifestações, pela preservação de sua memória e, principalmente, por compreender que a cultura precisa estar presente no cotidiano das pessoas.

Que possamos ser reconhecidos pelo que fizemos, mas também pelo que ainda somos capazes de construir, com coragem, esperança e compromisso. Que nossas crianças e nossos jovens encontrem na cultura caminhos para descobrir suas possibilidades, acreditar em seu potencial e compreender que seus sonhos podem, sim, ganhar espaço e se tornar realidade”, finalizou.

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