Por José Augusto Chrispim
O interior de São Paulo, principal produtor sucroenergético do Brasil, vive uma crise que não se via há muito tempo no setor. Os produtores da região de Araraquara vivem um sufocamento financeiro devido às margens negativas, o endividamento crescente e falta de políticas públicas capazes de oferecer segurança diante de um cenário que combina crise climática, queda no valor internacional do açúcar e aumento dos custos de produção.
Mercado abastecido
A reportagem falou com o presidente da Canasol (Associação dos Fornecedores de Cana de Araraquara), Luís Henrique Scabello de Oliveira, que explicou que vários fatores compõem o cenário de crise vivido pelo setor, principalmente na região de Araraquara que tem a cana-de-açúcar como sua principal cultura representando 85,9% da produção agrícola total do município, seguida pela soja (3,88%) e pelo café (3,6%).
“A origem dessa crise está em uma das maiores qualidades que o Brasil tem que é justamente a vocação agrícola do país que, há 40 anos, importava alimentos e, hoje, é o maior exportador de produtos agrícolas do mundo. Essa capacidade imensa que o Brasil tem de produzir alimentos é, ao mesmo tempo a nossa riqueza, às vezes, é o nosso problema, porque o que estamos vivendo hoje é o excesso de produção, pois, a capacidade brasileira de produção de etanol superou muito a capacidade de consumo do Brasil. Hoje temos o metanol feito do milho também que corresponde a 25% da produção do etanol no Brasil, portanto, se considerarmos que a produção de cana vem crescendo – ainda que em menor nível -, mas com o etanol de milho crescendo nessa velocidade nós temos o excesso de oferta do produto. Nos anos anteriores, parte da cana era desviada para suprir o déficit mundial de açúcar, mas, nos últimos anos o mercado internacional está bem abastecido, por isso, a procura diminuiu, embora, é sempre possível haver frustração de safra dos grandes produtores de açúcar no mundo, como Brasil, Tailândia e Índia”, explicou o presidente da Canasol.

Maior produtor de biocombustível do mundo
Luís Henrique ressaltou que o setor está aproveitando a queda no consumo para criar uma grande reserva para o futuro que deve pedir um aumento nas vendas de biocombustível no mundo. “Nesse momento nós temos um excesso de produção de etanol, porém, por outro lado, estamos criando uma reserva para sermos o maior produtor de biocombustível do mundo com o etanol. Hoje a nossa produção de etanol é basicamente feita para consumo interno do país, mas, com as mudanças climáticas, a necessidade de reduzir as emissões de carbono no mundo, muitos países, principalmente da União Europeia, estão adotando os biocombustíveis, ainda que na COP 30 não tenha sido obrigado o uso dos biocombustíveis no mundo. Então, temos nesse momento uma expectativa de fazermos uma produção robusta para que a gente possa atender essa futura demanda. E uma das demandas que mais chamam a atenção é a produção do bioquerosene para a aviação (SAF) e também o biocombustível para navios para manter as metas de redução de poluição. Esse é um momento de transição para nós”, relatou Luís.
Produtores sufocados com a crise
Entre os produtores da região, a crise que é resultado da soma de três anos consecutivos de quebra de produtividade provocada pelo clima, da forte desvalorização do açúcar no mercado internacional, da queda do ATR (indicador que determina a remuneração da cana) em quase 14%, e da disparada dos insumos agrícolas, especialmente fertilizantes e combustíveis, devido às guerras entre Ucrânia e Rússia, e do Irã e EUA, a situação é de extrema dificuldade.
O produtor rural, Romualdo Luiz Vanalli Polez, proprietário da Fazenda Lagoa, localizada em Ribeirão Bonito, que produz cerca de 10 mil toneladas por ano de cana-de-açúcar, falou à reportagem de O Imparcial sobre as dificuldades enfrentadas pelos produtores da região de Araraquara.

“A situação está muito difícil para nós atualmente, porém, no passado tivemos preços melhores, então, quem teve condição de se preparar está sofrendo um pouco menos, mas, hoje estamos com muitas dificuldades devido aos custos dos insumos. Hoje, para você plantar uma lavoura é muito caro, a mão-de-obra, o óleo diesel, pesam muito nos custos da lavoura, por isso, quem não conseguiu fazer uma “gordura” lá no passado, atualmente está passando por muitas dificuldades. E vemos que não é só no setor da cana, vemos que outros produtos como o milho, a soja, sorgo, o frango, estão todos em situação difícil, porque os custos são maiores do que a produção”, argumenta o produtor.
Incentivo
Romualdo lembra que os preços são determinados pelo mercado, porém, se houvessem mais incentivos dos governos estadual e federal, como uma redução nos preços do óleo diesel e dos adubos para o produtor ajudaria a reduzir as perdas do setor. Outro problema apontado pelo produtor é a falta de mão-de-obra na lavoura. “Hoje a mão-de-obra está escassa e caríssima. O setor inteiro está passando dificuldade em conseguir mão-de-obra para a lavoura”, destacou Romualdo.
Diversificar a cultura
De acordo com a produtora rural, Suze Timpani, da fazenda Guariroba, em Guarapiranga, é necessário diversificar o plantio, deixando de plantar tão somente cana. “Embora o campo esteja em crise, temos que procurar novas técnicas e novas culturas, pois, as usinas hoje pagam o que querem e, se não aceitarmos o valor que oferecem, a cana fica no campo, e isso não é justo. Muita gente não terá como fazer reformas em seus canaviais devido ao preço vergonhoso que foi pago pela nossa safra”, explica Suze.





























