*Breno de Oliveira Conde
No último mês de julho, foi inaugurada no Museu Histórico e Pedagógico “Voluntários da Pátria”, em Araraquara, a exposição “VOZES: memória, resistência e legado”, iniciativa que se tornou possível por meio de um edital do ProAC, o Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo voltado à modernização dos museus, obtido pela Fundação Araporã em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de Araraquara. Mas por que essa exposição merece atenção e, sobretudo, uma visita? Podemos começar pela própria maneira como a exposição foi construída. A Fundação Araporã propôs um modelo coletivo de participação, no qual sujeitos historicamente sub-representados nas narrativas dos museus participaram das decisões sobre o que seria apresentado ao público e sobre as formas de representar suas próprias experiências e memórias. Esse processo criativo também contou com a participação de técnicos da organização, funcionários dos museus municipais e pesquisadores das áreas de museologia e patrimônio, reunidos entre 2025 e 2026 em encontros de formação e debate. Desse trabalho coletivo nasceu a nova exposição, construída a partir do modelo que, na linguagem da Museologia, se denomina curadoria compartilhada ou participativa: em termos simples, as decisões sobre o que será contado e como será contado deixam de estar concentradas exclusivamente nos profissionais do museu e passam a ser construídas coletivamente com os grupos sociais a serem apresentados. Essa mudança ganha maior dimensão quando consideramos a história institucional do Museu Histórico e Pedagógico “Voluntários da Pátria”, instituído por lei estadual na década de 1950 e materializado em 1970, inicialmente em um prédio localizado na Avenida Espanha, posteriormente demolido e hoje ocupado por uma instituição bancária. Sua criação integrou um amplo projeto do Governo do Estado de São Paulo, que implantou museus históricos e pedagógicos em dezenas de municípios paulistas. Essas instituições estavam vinculadas a uma concepção que articulava educação, história e museologia e que, na perspectiva de seus formuladores, deveria cumprir uma função pedagógica e cívica, contribuindo para a formação dos estudantes da rede pública por meio do contato direto com objetos e personagens considerados representativos da história nacional. Ao mesmo tempo, esses museus ajudariam a difundir a interpretação do protagonismo paulista no processo histórico brasileiro. No entanto, a cultura material reunida nesses museus expressava uma escolha política e ideológica: armas, objetos pessoais e móveis associados a autoridades, retratos de políticos e militares e outros itens relacionados às elites ocupavam posição privilegiada, enquanto experiências históricas de outros grupos sociais foram enquadradas em categorias como “folclore” e “cultura popular”, produzindo assim uma forma assimétrica e hierárquica de representação, na qual alguns grupos sociais apareciam como protagonistas da história, enquanto outros eram apresentados de maneira secundária ou simplesmente permaneciam ausentes. O Museu Histórico e Pedagógico “Voluntários da Pátria” não constituiu uma exceção a esse processo de apagamento. O próprio nome da instituição permite perceber essa escolha. Os 30 “Voluntários da Pátria”, em sua maioria filhos da elite local que participaram da Guerra do Paraguai (1864–1870), foram homenageados como patronos do museu. Essa celebração da guerra, entretanto, pode ser questionada quando observada a partir de outra perspectiva histórica, durante muito tempo menos visível. No maior conflito bélico da história da América do Sul, o Império brasileiro mobilizou não apenas membros das elites, mas também milhares de homens negros escravizados, libertos e pobres, incorporados à guerra de forma compulsória ou sob coerção. Parte da historiografia passou a se referir a esses combatentes como os “involuntários da guerra”, destacando o contraste com a imagem heroica construída em torno dos “Voluntários da Pátria”. Embora tenham desempenhado papel decisivo no conflito, os “involuntários” não receberam o mesmo reconhecimento na memória pública. Ao privilegiar os filhos da elite local (e branca) araraquarense, a narrativa histórica do museu acabou atribuindo centralidade a um grupo social específico, enquanto outras experiências e sujeitos históricos permaneceram à margem. Algo semelhante ocorreu com a representação dos povos indígenas no museu. Durante décadas, a cultura material de diferentes povos foi apresentada de maneira descontextualizada, exibida ao lado de minerais, animais taxidermizados e outros elementos que compunham um setor denominado “História Natural” (sic). Nesse enquadramento, os artefatos indígenas eram tratados como objetos de curiosidade, mais do que como expressões de sociedades historicamente constituídas. Pouco se dizia sobre a diversidade étnica e cultural desses povos, suas trajetórias históricas, seus territórios ou suas próprias formas de compreender e representar o mundo. Em relação à população negra de Araraquara, a presença nas exposições era ainda mais restrita. A principal referência era a obra “Batuque”, de Jorge Brandão Coutinho, o Mestre Jorge, incorporada ao acervo em meados da década de 1980 e catalogada como “arte primitiva”. Ao lado de esculturas de Mestre Dito utilizadas no filme Santo Antônio e a Vaca, essas peças eram exibidas em um expositor localizado no corredor do museu, conhecido entre os funcionários como “painel da arte popular”. A breve identificação que acompanhava as obras apresentava informações biográficas sobre os artistas, mas não abordava suas trajetórias como artistas negros, tampouco o contexto social, histórico e político de suas produções. Desse modo, embora essas obras estivessem presentes no museu, permaneciam inseridas em uma narrativa que pouco contribuía para evidenciar o protagonismo da população negra na história de Araraquara. É justamente esses e outros apagamentos que a exposição VOZES procura tensionar, ao incorporar diferentes memórias e perspectivas à narrativa institucional. Com isso, coloca em questão os próprios pressupostos da museologia e da historiografia que, ao longo do tempo, orientaram a constituição do museu e contribuíram para definir quem deveria ser lembrado, de que forma seria representado e quais experiências poderiam ocupar um lugar de destaque na memória pública de Araraquara. A nova exposição convida o visitante a reconhecer que a memória é um campo de disputas e que as formas de representação resultam de escolhas historicamente situadas. Nesse processo, estimula uma reflexão crítica sobre as relações de poder presentes nas instituições de memória, educação e cultura, questionando a ideia de neutralidade que por muito tempo legitimou determinadas narrativas e silenciou outras, embora seus efeitos ainda possam ser observados no presente. Nesse sentido, a visita a “VOZES: memória, resistência e legado” sustenta o argumento de que o passado não constitui um dado morto, destinado ao confinamento ou à mera salvaguarda, tampouco cabe ao museu operar como um antiquário a ser contemplado. A exposição evidencia, ao contrário, um processo em que diferentes grupos sociais disputam, negociam e constroem os sentidos atribuídos ao passado no presente. O museu configura-se, assim, como espaço vivo, cuja função social consiste em representar um país multicultural, marcado por preconceitos raciais e étnicos ainda a serem enfrentados. Assim, podemos pensar o museu de história da cidade de Araraquara como mais histórico de fato, em maior conexão com a história local e sua pluralidade cultural. Isso ficará provavelmente evidente quando o leitor visitar o espaço e sentir o contraste entre o andar de baixo, espaço da nova exposição, e o andar de cima, onde as três salas permanecem sem alterações. Que venham mais transformações no Museu Histórico e Pedagógico “Voluntários da Pátria”, cada vez mais representativo para todos, tornando-se assim um espaço cultural, político e lúdico de grandes novidades.
*Breno de Oliveira Conde é historiador




























