Em uma área de floresta próxima a uma cachoeira frequentada por turistas em Roraima, duas espécies de escorpiões permaneceram desconhecidas até serem encontradas por pesquisadores brasileiros. Nomeadas de Brotheas cernii e Cayooca puchus, as espécies foram identificadas durante expedições realizadas nas proximidades da Cachoeira do Evandro, no município de Mucajaí, localizado a cerca de 60 quilômetros de Boa Vista.
Liderados pela professora Manuela Berto Pucca, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp, em Araraquara, os pesquisadores encontraram exemplares que apresentavam características incomuns, como diferenças na coloração, no tamanho e em outros aspectos morfológicos. As particularidades chamaram a atenção da equipe, que iniciou uma investigação para verificar se os animais pertenciam a espécies ainda desconhecidas pela ciência. O resultado do trabalho acaba de ser publicado na revista Diversity e amplia o conhecimento sobre a biodiversidade amazônica.
“Os achados demonstram o quanto a Floresta Amazônica, especialmente em estados como Roraima, ainda é pouco explorada cientificamente. Se encontramos duas espécies inéditas em uma única região que investigamos, quantas outras ainda não conhecemos?”, destaca Manuela Pucca.
A descoberta representa o primeiro trabalho fruto do projeto AT-Biota: Desvendando a Riqueza Oculta de Aracnídeos e Triatomíneos em Regiões Inexploradas dos Biomas Brasileiros, coordenado pela professora Manuela Pucca, que é coordenado pela docente da FCF e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Uma região ainda pouco explorada
As duas espécies foram encontradas em um ambiente bastante peculiar conhecido como inselberg, formações rochosas isoladas que se elevam em meio à floresta e funcionam como verdadeiras “ilhas ecológicas”. Por permanecerem relativamente isoladas ao longo de milhares de anos, essas áreas favorecem o surgimento de espécies exclusivas, adaptadas a condições ambientais muito específicas. Para os pesquisadores, o fato de duas espécies inéditas terem sido encontradas em uma mesma localidade reforça a hipótese de que regiões aparentemente pequenas podem abrigar uma biodiversidade muito maior do que se imaginava.
Além disso, a descoberta de Cayooca puchus trouxe uma relevância adicional pois o gênero Cayooca é considerado raro e conta com pouquíssimos representantes conhecidos pela ciência.
Segundo Pucca, as novas espécies são extremamente sensíveis às condições ambientais. Mesmo com tentativas de reproduzir no laboratório a temperatura, a umidade e os demais aspectos encontrados na floresta, alguns exemplares não sobrevivem por muito tempo no cativeiro. “São animais altamente especializados e adaptados a um ambiente muito específico. Mesmo quando tentamos reproduzir essas condições em laboratório, nem sempre conseguimos garantir sua sobrevivência”, explica a docente.
Para confirmar que os dois novos exemplares pertenciam a espécies ainda desconhecidas, a equipe precisou realizar diversas expedições ao longo dos anos para coletar exemplares machos e fêmeas, além de indivíduos jovens e adultos. O objetivo era reunir evidências suficientes para comparar os animais com todas as espécies já descritas. Somente após análises detalhadas realizadas pelo professor André Lira, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, e posteriormente validadas por outros dois especialistas: Antônio D. Brescovit, do Butantan, e Edmundo González-Santillán, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), é que a equipe chegou ao veredicto. “A descrição de novos exemplares exige um conjunto robusto de evidências e a validação por diferentes pesquisadores. É um trabalho minucioso que envolve análises morfológicas detalhadas”, afirma Pucca.
A origem dos nomes
Como costuma ocorrer em descobertas taxonômicas, a escolha dos nomes das novas espécies também guarda histórias curiosas. O nome Brotheas cernii foi escolhido pela professora Manuela como uma homenagem ao marido Felipe Augusto Cerni, pesquisador e professor da Universidade Federal de Roraima, e à filha, que também carrega o mesmo sobrenome. Segundo ela, o marido participou diretamente das expedições e colaborou com o desenvolvimento das pesquisas.
Já Cayooca puchus recebeu um nome inspirado na expressão espanhola “pucheros”, utilizada para descrever uma expressão facial de surpresa ou espanto. O termo faz referência à reação do pesquisador André Lira, primeiro autor do artigo, ao perceber que estava diante de uma espécie inédita.
Da biodiversidade à busca por novos medicamentos
Embora o estudo tenha se concentrado na descrição taxonômica dos animais, a descoberta representa apenas o primeiro capítulo de uma linha de pesquisa mais ampla. Especialista em bioprospecção de moléculas presentes em venenos, Manuela Pucca e sua equipe já iniciaram estudos para investigar os compostos produzidos pelas novas espécies. “Já estamos analisando os venenos desses escorpiões. Nossa expectativa é que, em breve, possamos publicar novos trabalhos a respeito”, ressalta.
O interesse científico é justificado pelas características biológicas dos escorpiões. Por atuarem majoritariamente como predadores de insetos, eles desenvolveram ao longo da evolução venenos compostos por moléculas altamente especializadas. Essas substâncias despertam o interesse dos pesquisadores por seu potencial para a criação de inseticidas biológicos, além de possíveis aplicações nas áreas farmacêutica e biomédica.
“Esses animais vivem em ambientes extremamente desafiadores e desenvolveram, ao longo da evolução, moléculas ativas muito eficientes. Elas podem inspirar desde novos medicamentos até inseticidas biológicos mais seguros”, destaca.
Segundo a docente da FCF, os animais vivos foram enviados à Universidade Federal de Roraima, localizada na capital – Boa Vista, onde ela já lecionou e mantém parcerias acadêmicas. “Não podemos simplesmente trazer esses escorpiões vivos para o laboratório da FCF. Além das exigências legais e ambientais, são espécies muito adaptadas às condições da floresta amazônica e bastante sensíveis às mudanças de habitat. Por isso, parte dos estudos precisa ser realizada na própria região onde eles ocorrem”, diz a professora Manuela Pucca.
A equipe já planeja novas expedições a Roraima para ampliar o levantamento da fauna local. Além dos escorpiões, os pesquisadores pretendem investigar aranhas e barbeiros, ampliando o conhecimento sobre grupos de grande relevância ecológica e biomédica. “As maiores descobertas científicas muitas vezes surgem quando estamos explorando o desconhecido. Por isso, conhecer e preservar nossa biodiversidade é fundamental não apenas para a ciência, mas também para o desenvolvimento de soluções que podem beneficiar toda a sociedade”, conclui.
































