Isabela Mattos/Colaboração
A 5ª edição do Prêmio André Braz 2026 aconteceu na última quinta-feira (14), na Casa SP Afro Brasil, em Araraquara. A cerimônia é voltada a homenagear homens negros e pardos que lutam contra o racismo. Foram destacados dez representantes da sociedade, entre eles, o vereador João Clemente (Progressistas), que foi entrevistado pelo Jornal O Imparcial nessa segunda-feira (18) e falou não somente sobre a premiação André Braz, mas, também sobre a luta contra o racismo.
Veja a entrevista na íntegra:
Imparcial: Em 13 de maio de 1888, por meio da Lei Áurea, aconteceu a abolição da escravatura. Sabendo que o Brasil foi o último país das Américas a abolir o regime escravocata, na sua opinião, quais os avanços são necessários ainda hoje?
João Clemente: “Em relação a essa primeira questão, eu diria para você o seguinte: um país que opta por caminhar no capitalismo e que faz o processo de abolição como se deu o nosso está fadado ao fracasso, porque ele pega a maior parte da sua população e não dá uma destinação digna para acolher essa massa de cidadãos, que até então nem eram considerados cidadãos, de trabalhadores dentro do sistema do mercado.
O atraso do Brasil, historicamente, se dá por conta de como foi o processo pós-abolição. E você pergunta a relação do 13 de maio e as consequências mais nefastas? São de todas as ordens. Ela é de ordem educacional, porque os percalços da educação atingem necessariamente, majoritariamente, a população negra. Ela tem impacto cultural, porque essas pessoas tiveram que ir para o submundo da vida, tendo que ser relegadas a situações deploráveis de subsistência, e não tem como se discutir cultura nesse contexto.
Ela é de força habitacional, porque saíram da fazenda, da senzala, e iam morar onde? Então, assim, ela toca diversas ordens. Na segurança pública aqui na cidade, o processo de pós-abolição, viciado da forma como se deu, relegou o país a ser um país de terceiro mundo.
E enquanto as autoridades, as oligarquias políticas e econômicas do país não se convencerem de que precisam mudar essa estrutura, pouco avançaremos nesse sentido”.
Imparcial: Você foi um dos homenageados na 5ª edição do Prêmio André Braz 2026. Na sua luta contra o racismo e a favor do povo preto, qual é o seu maior desafio?
João Clemente: “Fui homenageado no André Braz, nessa quinta edição, foi uma honra. Eu que fiz algumas indicações enquanto vereador, mobilizei outras indicações enquanto cidadão, né? Conheci o André, conheci o projeto dele. Esse ano fez 11 anos que meu pai faleceu, e meu pai foi um dos primeiros que foi convidado a fazer parte do grupo, do clube, que seria a ACAAAR (Associação Cultural Afro-Descendente dos Amigos de Araraquara e Região). O André também nos presenteou em vida com a Meia Maratona Armando Clemente, que é um tio-avô meu, também tinha um vínculo muito forte na cidade com o esporte, com o atletismo.
Então, assim, ter o André Braz na minha estante hoje é símbolo de que nós estamos na reta certa, né? Você me pergunta o que isso quer dizer na luta contra o racismo e eu costumo responder essa pergunta citando o professor geógrafo, Prêmio Nobel de geografia, professor Milton Santos.
Milton Santos escreveu um artigo, certa feita, para um jornal do país, cujo título era ‘O Risco e o Perigo de Ser Negro no Brasil’. A abolição se deu de forma legislativa, mas não se deu de forma social. O que eu quero dizer com isso? É que a abolição foi na caneta, mas não foi no contexto social, no tecido social. Mesmo que você tenha negros com ascensão social no Brasil, o imaginário coletivo do brasileiro é de um negro subalternizado. Então, há um perigo iminente de você ser negro no Brasil pelo simples fato de existir, onde você é atrelado a crime, à feiura, né?
É como a gente ouvia nossas crianças relatando — eu fui uma criança dessas — em alguns contextos: ‘Ah, seu cabelo é feio, seu cabelo é duro, seu nariz é largo’. Explorando negativamente os pontos da negritude. Piadas, né? O Brasil ainda convive harmonicamente, uma boa parte da população brasileira convive harmonicamente com a ideia de piadas racistas. Então, o desafio é constante. E estar no espaço de poder, na Câmara Municipal, não reduz isso. Muito pelo contrário, em alguns contextos, ressalta”.
Imparcial: Na defesa pelo fim da escala 6×1, uma das coisas que temos ouvido é que o fim da escala também é considerado um combate ao racismo estrutural, porque essa jornada de trabalho afeta diretamente e de forma desproporcional à população negra e periférica. O que você tem a dizer sobre isso?
João Clemente: “Quanto ao fim da escala 6×1 está, de fato, atrelada com o trabalho. E o negro no Brasil foi trazido como massa de trabalho, né? Após dizimadas populações indígenas, os colonizadores vão atrás da mão de obra que pudesse ser substituída. Então, claro que isso precisa ser aprofundado, pensando nas consequências, nos desdobramentos. Mas não tenha dúvidas que a vítima do trabalho 6×1 é o homem preto periférico, é o homem preto que está longe dos centros urbanos, é o homem preto e a mulher preta que têm jornada tripla, dupla, quádrupla, trabalha fora, trabalha em casa, que é arrimo de família. Então tenho certeza que a discussão da escala 6×1 passa, de alguma forma, no combate ao racismo, para trazer mais condições dignas, condições das pessoas poderem atuar na sua vida”, finalizou Clemente.































